segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O QUE RESTOU DE NÓS


O plano era navegar pelo atlântico, quase sem rumo, procurando um lugar bonito para alcançar o sossego de uma vida com amor. Não estava nada anotado, bem planejado, revisto ou até mesmo compartilhado. Era uma ideia surgida dos devaneios de Bento em uma das tardes em que passava a tarde estudando na biblioteca da faculdade. Ele cursava Direito na capital. O pai queria que ele não vivesse no meio do pescado como seus empregados. O filho teria que ser advogado ou médico. Talvez engenheiro. Bento escolheu ser advogado, ou talvez tenha apenas acontecido.
Quando foi embora de Águas Rasas para estudar na capital, há seis meses, Bento levou consigo um pouco de medo, amor e saudade. Enquanto arrumava as malas para voltar para aquela cidadezinha litorânea quase esquecida por Deus, o coração dele palpitava e sua garganta travava. Às vezes ria sozinho, produto de boas lembranças. Às vezes ficava encarando o nada por vários minutos seguidos, imaginando o barco à deriva no oceano e os braços de Miguel. Pensar em Miguel doía. E doeu ainda mais quando ele precisou deixa-lo em Águas Rasas e rumar para a capital. Se falavam bastante graças à tecnologia, mas a vontade intensa dos abraços e da presença estava longe de ser saciada.
Quando Bento perdeu a mãe para o câncer, ele tinha treze anos. Não havia parentes próximos com quem pudesse ficar e sua única alternativa foi morar com o pai. A mãe havia se divorciado do pai há anos. Desde que descobrira a traição. Desde então mãe e filho moravam juntos em um condomínio de subúrbio na capital e o pai crescia uma peixaria na cidade pesqueira de Águas Rasas como sua nova companheira. Vinte anos mais nova. A mãe sempre gostava de repetir isso enquanto sentia fortes dores no peito, indícios de um trauma que gerou uma força negra que a tomou por completo em cinco longos anos. Ele não sabia, mas a vontade de viver dela se esvaiu quando acordou pela primeira vez em sua cama vazia. Nada era mais o mesmo.
Quando Bento chegou na casa dos pais pela primeira vez, ele não conseguia entender quase nada do que estava acontecendo. O pai morava em um casarão de aspecto antigo por fora, mas bem decorado e modernizado por dentro, fruto de seu progresso no ramo da pescaria. Bento descobriu que a casa foi herança de seu pai, além de uma frota de barcos pesqueiros e alguns empregados. A pesca estava nas veias da família. Talvez seja por isso que Bento teve a brilhante ideia de tomar um dos barcos do pai e fugir para bem longe. Foi quando ele conheceu Miguel e tudo mudou.
Miguel era filho de um dos pescadores que trabalhavam para o pai de Bento. Assim como o pai, o filho sabia muito sobre peixes, marés e cordas. Miguel tinha quase a mesma idade de Bento e nunca havia jogado vídeo game. Foi assim que tudo começou. Bento mostrou novidades para o novo amigo, que estava deslumbrado com o que o dinheiro podia pagar. Miguel era o quinto filho, o caçula, e aprendeu a ficar feliz com pouco ou quase nada. A mãe deles se esforçava para cuidar da casa com o pouco que ganhava o pai de Miguel, mas o marido não aceitava que ela voltasse ao oficio de costureira. A vida em Águas Rasas não se movimentava como as marés. Os irmãos de Miguel seriam pescadores, assim como o pai é os avós foram antes deles. Talvez Bento pudesse ter encarado esse destino. Pelo menos ele estaria perto do amigo. Mas seu pai resolveu que ele não seria pescador, mas Juiz de Direito. Porque sim.
Miguel e Bento estudaram juntos, na escola estadual da cidade. Uma escola simples, pouco desenvolvida. Estudaram na mesma sala. Faziam juntos as tarefas. Brincavam juntos. Voltavam juntos para casa e aprendiam os segredos da pesca juntos. Às vezes jogavam vídeo game, só para sair um pouco daquela realidade quando o pai de Miguel o deixava dormir no casarão do patrão.
No último ano da escola, Miguel e Bento tiveram que se separar. Bento havia feito o vestibular e não havia universidades por perto. Foram separados por mais de trezentos quilômetros de pura angústia. Teria sido muito mais fácil se eles não tivessem selado o amor que sentiam um pelo outro nos últimos dias antes da partida. Todos perceberam que os dois andavam estranhos, mas ligaram ao fato de que eram muito amigos e precisavam se separar. Dois caminhos, distintos. Bento prometeu a volta. Miguel teria que esperar.
O cenário de Águas Rasas era incrível. Nas férias recebiam muitos turistas devido as duas dunas que criavam uma paisagem paradoxal. O deserto e o mar se encontravam, como um amor impossível. Pela janela do carro pai, Bento se recusava a perguntar o paradeiro de Miguel para não levantar suspeitas. Não era uma surpresa que nas férias ele iria voltar para a casa do pai.
- Estamos reformando a casa. Sua avó está morando com a gente agora. Ela está doente e não pode mais ficar sozinha.
O pai quebrou o silêncio, mas a noticia foi recebida sem reações. Não importava.
A madrasta de Miguel evitava falar com ele. Não se metia entre o filho e o pai e tudo o que queria era uma boa vida e mostrar para as amigas de infância o quanto ela cresceu ao fisgar um bom partido. Mesmo que já tivesse esposa e filho esperando por ele em casa. Miguel não se dirigia a ela, igualmente. O luto pela mãe e a mudança repentina contribuíram imensamente para isso.
Tudo estava exatamente do jeito que ele deixou quando foi para a capital. Exceto por um detalhe: seu quarto estava ocupado. A avó paterna repousava quase morta quando ele abriu a porta do quarto.
- Você vai ficar na casa do Miguel essas férias. A gente está terminando seu quarto ainda...
Bento realmente se esforçou entre a raiva súbita que sentiu ao ver que não tinha mais lugar para ele na casa ele e a explosão de felicidade e ânsia que fez suas entranhas dançarem uma conga.
***
- Presta atenção na rede, menino!
O pai de Miguel puxava o monte de peixes sequestrados com mais esforço do que deveria.
Miguel não estava de corpo e alma naquele barco. O coração estava acelerado, mas o corpo entorpecido. O sol queimava suas costas e seu pensamento estava distante com a possibilidade de receber Bento em sua casa. Ele iria dormir no sofá só para que Bento pudesse ficar mais confortável. Era o mínimo que ele podia fazer. Receber bem as visitas.
Quando Miguel chegou em casa, Bento já estava lá conversando com a mãe dele e os irmãos, esperando o café ferver. O cheiro de peixe frito e macaxeira preenchia a casa pequena, mas confortável. Foi uma recepção natural para todos. Para Miguel foi uma tortura. Ele precisava fingir que aquele homem sorridente e bem letrado não era um dos seus maiores motivos de insônia. Ele evitou olhares, sorriu menos das piadas. Estava ansioso para um momento em que eles pudessem estar a sós. Não seria ali, naquela casa sem forro, que todo barulho passeava pela casa como se fosse um cômodo só. Nem mesmo sussurros seriam tolerados.
Foram seis longos meses desde que Bento se foi. Muito havia mudado. Miguel aprendeu a beber e a fumar de vez em quando. Saia com os irmãos mais velhos para festas com paredões e soube que se esquivar das investidas das mulheres atrairia péssimas impressões para ele. Afinal, Miguel tinha se tornado um belo homem. O mais bonito dos irmãos. Alto, definido, a pele queimada do sol, quase nenhum pelo no corpo e um sorriso muito branco. Foi assim que ele chamou atenção demais da madrasta de Bento, que o pegou desprevenido enquanto ajudava na reforma do casarão. Foi a primeira vez que ele não conseguiu evitar. O pai não podia perder o emprego. E em troca a mulher conseguiu convencer ao pai de Bento a comprar um celular para Miguel.
- Agora ele vai poder falar com o amigo lá na capital, amor.
A mulher tinha o marido na palma da mão. Miguel já tinha ouvido falar sobre as peripécias dela quando passava um tempo perto dos pescadores com quatro ou mais doses de pinga queimando na garganta. A mulher do patrão era jovem demais para se aposentar.
Quando Miguel ligou para Bento pela primeira vez foi como se o mundo inteiro tivesse virado de cabeça para baixo. A voz dele, com um timbre grave, o hiato que deixava entre as palavras, como se estivesse escolhendo bem o que iria dizer. Miguel sentia falta de olhar nos olhos dele, sentir o hálito, o toque grosso e principalmente dos lábios que ele conseguiu provar na virada de ano novo, dentro do quarto dele no casarão, com todos da família brindando na beira da praia sem imaginar os pecados que estavam acontecendo.
A vida realmente não foi mais a mesma. Já não era antes, aliás. Miguel nunca entendeu porque não sentia atração por meninas. Nem as mais bonitas da escola. Se passava por tímido para não levantar suspeitas. Não olhava para os amigos de forma direta e preferia deixar sua mente mais próximas dos barcos e peixes. Ele sabia que homens afeminados não viviam bem. Eram menosprezados, abandonados e humilhados. Uma vez ele escutou os pescadores falando sobre um afeminado que morreu de tanto apanhar. Conhecer Bento mudou tudo. Ele o aceitou e o medo se apequenou. Era muito difícil compreender que era mais do que amizade. Miguel via as meninas dizerem o quanto Bento era inteligente e rico. Quando eram menores, Miguel era muito magro, retraído e pouco se cuidava. Aos poucos ele foi tomando corpo e se tornando um homem bonito, mas não inteligente e muito menos rico. Bento jamais havia mostrado interesse nele até aquele final de ano. A iminência do afastamento fez com que eles aproveitassem mais os dias, fizessem coisas que jamais haviam feito.
Em uma noite antes do natal, Bento teve a ideia de visitar as dunas mais longínquas. Ele sempre tinha as melhores ideias. Dirigiram o quadriciclo do pai de Bento até o ponto mais alto e mais distante das luzes da cidade. Estava muito frio e eles observaram a natureza em silêncio, como se fizessem uma prece para agradecer aquela imensidão de areia e água.  Se perderam no tempo, sentados na areia, lado a lado. O calor que trocavam naquele momento era intenso. O estopim de tudo que culminaria no beijo ardente e inesquecível ao som dos fogos de artifício. Miguel já sabia o que ele queria naquela noite nas dunas. Ele queria tirar a roupa de Bento bem li mesmo, na areia branca e gelada, beijar cada centímetro de seu corpo e declarar que perderam tempo demais entre lutas no vídeo game e redes de pescar. Ele desejava provocar o corpo masculino, crescido e intocado de Bento. Chegar aonde ninguém mais chegou.
Naquela mesma noite Miguel mal conseguiu dormir. Teve sonhos e gozou silenciosamente muitas vezes pensando no que poderia ter acontecido. Teve medo de alguém conseguir ler seus pensamentos, de dormir e falar o nome de Bento enquanto sonhava e todos em casa descobrirem seu segredo.
Com Bento de volta em sua vida, tão próximo, ele teve medo, pela primeira vez, de viver. Medo do futuro e do que poderia acontecer se eles fossem descobertos. Os planos mirabolantes de Bento precisavam funcionar. Em breve eles estariam juntos para sempre. 
***
            A mãe de Miguel era uma mulher nascida e criada em Águas Rasas. O homem que a tirou de casa, prometendo uma vida de amores e farturas, tinha chegado na cidade com um barco pesqueiro. As moças da cidade fizeram o maior alvoroço por causa do forasteiro. Jovem, bonito e tinha o próprio barco. Dormia nele também, já que não tinha motivos para se estabelecer em Águas Rasas. Por um tempo ele vendeu os peixes que pescava, eram bons, frescos. Mas não conseguia mais do que o necessário para continuar de pé. Se apaixonar pela menina na janela fez o pescador vender seu barco e prometer o que jamais pôde cumprir.
            Cíça se casou com Antônio alguns meses depois de sua chegada na cidade. Vendida, a mulher viu sua vida mudar completamente no primeiro mês de casada. Empobrecida e grávida de seu primeiro filho, que iria se chamar Antônio como o pai e o avô, ela se pôs a costurar e arrumar um jeito de conseguir dinheiro para o enxoval. O marido não queria que ela trabalhasse. Ele prometeu que ela não iria precisar trabalhar enquanto homem da casa estivesse vivo. Inclinada a ajudar o marido, apanhou aos nove meses quando o marido descobriu seu pé de meia conseguido pelo esforço dos vestidos que costurou. Nasceu da pancada, assim veio ao mundo Antônio Neto.
Ciça se confessou pela desobediência. Aprendera desde cedo que jamais deveria desconfiar ou enfrentar o marido. Ele era tudo o que ela precisava. Escondeu a agulha e a linha e passou fome em silêncio. Quando o marido começou a beber, algumas vezes ele descontava nela a frustração de ter vendido seu amado barco para desposá-la. Com o dinheiro do barco, a família dela deixou a cidade, em busca de melhores oportunidades. Ciça já estava muito bem resolvida com isso, pois não foi diferente com suas irmãs.
Nos anos que se sucederam, o casal teve mais três filhos. O intervalo entre cada um foi de um ano. Antônio Neto, João, Pedro e Carlos. Os amores do pai. A vida estava começando a ficar bem mais leve. O marido arranjou emprego numa pescaria. Tinha vendido o barco, mas as habilidades de pesca estavam com ele ainda. Em um tempo de vacas mais gordas, dois anos após Carlos, o quinto nasceu. Ciça tinha desejado com muita força uma menina para ajudar nos afazeres de casa, mas Miguel nasceu contrariando esse desejo. Ela realmente teria de ficar sozinha. Não aguentava mais ser receptáculo da vida. Desistiu. Também não sentia mais desejo pelo Antônio pai, que algumas vezes era visto pelos cabarés, com filho mais velho correndo por perto.
Miguel ficava mais tempo em casa, com a mãe. Aos poucos ela foi entendendo que ele não era como os outros, que buscaram o caminho da rua com muita naturalidade. Ele quase não falava e gostava mais de passar o tempo assistindo a velha televisão que ficava na sala de casa. Quando Antônio Neto completou doze anos, o pai o levou para ver as quengas. Ciça foi perdendo pouco a pouco o respeito dos filhos, menos o de Miguel. Foram quatro longos anos tentando encaminhar melhor os filhos e apanhando de vez em quando para aprender a ficar calada e deixar o pai escolher o melhor para suas crias. Miguel, por outro lado, enxergava a mãe. Ele era a sua maior conquista e segredo.
Quando todos os filhos mais velhos saiam com o pai na noite, Ciça acendia uma vela e ensinava Miguel a costurar belas toalhas e roupas. Ele entregava as encomendas sem dizer a ninguém e recebia dinheiro para jogar no fliperama e comprar flau de vez em quando para refrescar no calor da cidade. Ele fazia tudo isso escondido para que os irmãos não questionassem e o segredo da mãe fosse descoberto. Quando era pego ele dizia que ganhou o dinheiro por favor prestado às pessoas. Como se tratava de algo normal, ninguém realmente fazia questão de se aprofundar.
Com o passar dos anos, o patrão do marido faleceu e o filho dele assumiu a frota dos barcos e a venda na peixaria. O novo patrão do marido era muito parecido com ele. Os boatos que corria pelas calçadas era que ele tinha deixado mulher e um filho na capital e vindo morar em Águas Rasas com uma nova mulher. Vinte anos mais nova.
            Antônio proibiu Ciça de comentar algo sobre isso, pois poderia prejudicar o novo patrão. O marido tinha conseguido alcançar maior confiança com o novo patrão e fofocas das mulheres não deveriam atrapalhar essa relação. Ciça emudeceu. Não queria mesmo se envolver desde que sua mesa tivesse comida e tivesse pano para cobrir suas vergonhas. Era o necessário para viver. Além de sua agulha afiada, seu carretel de linha e Miguel.
            À medida que cresciam, os filhos mais velhos começaram a tomar um rumo diferente. Brigavam com o pai, sumiam por dias e voltavam revoltados com a vida. Passaram a beber, trazer muitas meninas para serem apresentadas para a mãe e quase nenhuma durava mais de um mês. Assim se perderam os quatro filhos, menos Miguel. Que observava de longe, mesmo estando tão junto. Ele ouvia calado as discussões. As insistências que dos filhos de que homem de verdade precisa estar agarrado na mulher que lhe deva abertura para isso. Ciça já não discutia, calejada pela vida. Seus olhos estavam em Miguel, sua última esperança. Esperança de ver um futuro neto bem criado e saudável correndo pela sua casa.
            A amizade de Miguel com Bento, pegou a mãe de surpresa. Ciça percebeu que o filho estava mais centrado nos estudos e evitando muitos problemas enquanto estava com o filho do patrão de Antônio. Ciça o escutou uma ou duas vezes resmungando baixo pelos cantos que os meninos andavam “juntos demais”, mas como era o filho do patrão, ele preferia não falar mais alto. Ciça nunca tinha percebido nada demais naquela amizade. Era bem melhor do que as amizades que os filhos mais velhos costumavam ter. Bebidas, fumo e quengas o tempo inteiro enquanto não faziam bico evitando estudar.
- Estude meu filho, é só o que lhe peço. Você terá tudo o que você quiser.
Ciça não cansava de aconselhar Miguel quando o via tentando aprender palavras novas ou sonhando em ter um vídeo game igual ao do Bento.
Anos mais tarde, Antônio sentiu o tempo e percebeu que precisava de ajuda na pescaria, mas não sobrou filho que o respeitasse para ajudá-lo. Miguel era sua última alternativa e Ciça ficou um pouco preocupada. Miguel estava acabando a escola, finalmente e ele poderia fazer até mesmo um curso para ser doutor. Mas o destino não quis. Antônio disse que ele seria doutor em outra vida, pois naquela ele era pescador e que se fosse para ficar com cheiro de peixe para o resto da vida, ele iria ficar. Miguel ficou muito triste quando amigo foi embora para ser advogado ou juiz. Ciça tentou consolar o filho dizendo que nada dura para sempre, mas, com o futuro interrompido pelo pai, a mãe viu o filho se juntar ao ódio acumulado dos irmãos. Miguel começou a beber, a fumar e ia para as festas onde corria solta os mais variados tipos de safadeza. Ciça adoeceu em silêncio. Antônio nem mais reclamava. A vela que Ciça usava para costurar já não mais brilhava e a casa começou a ficar mais tempo vazia, a amargura sustentando as paredes dos sonhos despedaçados.
Quando o mês de agosto chegou, Miguel apareceu, silencioso. Arrumou o quarto e disse que Bento ficaria ali nas férias. Ciça observou tudo enquanto ariava as panelas de casa e ela podia jurar que viu um sorriso escondido no rosto de seu filho antes dele sair para pescar com o pai.  
***
Célia estava voltando para casa quando reconheceu o rosto de Miguel entre os pescadores mal acabados que trabalhavam para seu marido. De repente ela sentiu falta de ter aquele jovem corpo entre as pernas, mostrando virilidade e vigor que seu marido velho e bruto não conseguia manter. O mais delicado que o marido conseguia ser era quando segurava um copo de cachaça, mas Miguel sabia exatamente como deslizar as mãos cheias de calo pelo corpo de uma mulher. Ela sentiu um desejo tão intenso que parou o carro e ficou observando o rapaz enquanto fingia retocar a maquiagem. Ela precisava encontrar uma forma de tê-lo naquela mesma noite. Por sorte, tinha conseguido convencer ao marido de comprar um celular para o rapaz sob o pretexto de precisar se comunicar com ele para eventuais trabalhos ou para falar com Bento quando ele estava na capital. Como Bento estava na cidade, seria arriscado ligar para Miguel sem levantar suspeita.
Por algum tempo foi fácil laçar o rapaz, porque Célia o viu trabalhando na construção do casarão para conseguir uns trocados. Quando ninguém mais estava lá, Célia se aproximou sem esconder suas intenções. Ela nunca viu um corpo inteiro pulsando como naquele dia. Ele estava rígido da cabeça aos pés, mas de alguma forma seu corpo era macio. Ela segurou com veemência o volume na bermuda do rapaz e seu desejo explodiu. O suor descia pelas costas e não estava calor. O corpo tremia, mas não estava frio. Ela entendeu que ele nunca deveria ter estado com uma mulher de verdade e ela era uma mulher de verdade.
Ser uma mulher de verdade naquela cidade não era fácil. Ela não tinha nascido para ser mulher de um homem só, mas também não tinha nascido para ser quenga de esquina. Ela tinha conseguido um homem chucro, deslumbrado com as possibilidades da herança e com uma mulher que já não tinha mais o que dar. Ela sabia que ele tinha um filho também. Todos têm. Ela nunca se importou. Foi fácil para Célia cativar Naelson e suas calças surradas fedendo a peixe. Ele achou que poderia recomeçar a vida. Uma casa nova, um emprego novo e uma mulher nova. Bem mais nova, diga-se de passagem. Não demorou muito e ela mostrou que ele ainda estava vivo por trás daquela carcaça imunda. Ele era igualzinho ao pai dela. Burro, feio e fedorento, mas fácil de domar. E, principalmente, tinha dinheiro. Miguel foi muito bem pago para ficar calado. Célia havia avisado que se o marido soubesse o pai dele certamente iria perder tudo. O rapaz entendeu.
Quando a mãe do Naelson se mudou para a casa, Célia achou que não seria problema, mas a velha era observadora demais para quem está com o pé na cova. Ela não poderia criar problemas em casa. Graças a ela, que ocupou o quarto antigo de Bento, este teria que passar as férias na casa do Miguel. Seria muito arriscado para Célia conseguir se aproximar sem desconfianças. Haveria de ter outro jeito.
Ao terminar a maquiagem, Célia baixou o vidro do carro. Aproveitou e chamou o pai de Miguel, que estava carregando um tonel lotado de peixes. Cansado, o velho mandou o filho. O mais novo primeiro.
- Me encontre hoje de noite na peixaria e avise ao seu pai que meu marido pediu para ele deixar o Donzela pronto para sair amanhã, porque o Rainha precisa de conserto. Hoje eu vou fechar a peixaria. Vou esperar você lá.
Miguel assentiu sem falar uma palavra. Nem olhou para o rosto dela. Ficou olhando para o pai enquanto ouvia atentamente. Bom rapaz.
Célia voltou para casa na vontade de encontrar com o marido e lhe cansar o corpo. Ela precisava de pretextos para ir na peixaria. Fechar o caixa, comprar algo para a casa ou qualquer coisa que entediasse o marido ao ponto de ele não querer ir junto.
- Vá sozinha que hoje eu vou assistir o jogo. Vai vim o pessoal pra cá com as cervejas.
Célia, como uma boa mulher, iria obedecer ao marido. Ela era uma mulher de verdade.
Durante a tarde, ela aproveitou para tomar um banho na piscina e fazer os pedreiros no andar de cima olharem de soslaio. O marido descansava no sofá, o controle remoto pendurado na mão e o prato de comida do almoço vazio juntando mosca no centro da sala. A visão do desleixe. Assim era a vida de Célia. Uma corda bamba entre o sucesso e fracasso que só ela conseguia enxergar. Tramas que levam a lugar algum e fazer parte do imaginário popular. A vida girava em torno do possuir o impossível, de vangloriar o que jamais conseguiu e gozar de satisfações unilaterais. Cada um possui a vida que acha que merece e Célia, depois de ter sido abusada tantas vezes pelo pai, abandonada pela mãe que se tornou prostituta, acreditou inexoravelmente que aquela era a melhor volta por cima que ela poderia dar. Porque ela sim, era uma mulher de verdade.
***
    Antônio amarrou o Rainha e o Donzela na beira da praia e esperou. Eram barcos menores, mas muito eficientes. Um antigo pescador tinha conseguido a proeza de bater o casco do Rainha na barreira de corais e o barco nunca mais foi o mesmo.
O velho sentou na madeira e olhou para o marasmo da orla de Águas Rasas. Lembrou-se de quando chegou ali em seu próprio braço, cheio de vida e de sonhos.  A tristeza lhe invadia sempre que visitava o passado. Não lhe sobrava nada além do arrependimento, uma mulher frustrada, cinco filhos perdidos e o cheiro de peixe que nunca saia do corpo todo. Cinco não, quatro. Miguel ainda tinha chance. Meio avoado, estranho, mas sabia quando ficar calado e fazer as coisas. De vez em quando arranjava um trocado fazendo favores, andava com poucos amigos e nunca tinha trazido mulher pra dentro de casa. O que alegrava o rapaz era quando chegava Bento. O filho de Naelson. Um menino cheio das ideias, esperto, criado na frescura da cidade e não sabia dar um nó que não desatasse com o tempo. Foi ele que fez Miguel trazer livro para dentro de casa. Ninguém lia. Para pescar não precisa saber ler. Se quiser ser doutor tem que nascer filho de doutor. Filho de Antônio é para servir, não pra ser servido. Assim foi antes e assim será depois.
   A noite e maré baixa chegaram. Os barcos estavam onde deveriam estar e ele precisava voltar pra casa. Miguel tinha saído todo desconfiado lá para a bandas do mercado. Ele já vinha notando que algo não estava certo no rapaz e realmente decidiu sair à procura quando chegou em casa e Ciça disse que ele não tinha voltado pra casa.
Desde de criança o menino sempre foi estranho. Cheio de não me toque, com uma cara de quem sabia mais do que todo mundo. Nariz em pé. Antônio achava que era porque ele passava mais tempo com a mãe do que com os homens. Ficou uma moça. Os irmãos desciam o cacete nele, que não revidava, só chorava e corria para a barra da saia da mãe. Ciça acostumou mal o menino. Antônio nunca viu o filho caçula com mulher nenhuma. Até ouviu dizer por aí que ele nem homem era. O pai ficava furioso, esperando um deslize ou uma confirmação. Mas nada. Miguel era inocente até que se provasse o contrário. Quando os irmãos saiam assim de mansinho, era porque estavam com as raparigas. Miguel, então, estaria saindo escondido por causa de quê?
Antônio tomou um banho pensando se deveria ou não ir atrás do filho. Decidiu que sim. Ele precisava alumiar essa história cheia de segredos. Nem jantou e não avisou à Ciça, desceu a rua tropeçando nos paralelepípedos sem olhar para trás perguntando a um e a outro se Miguel tinha passado por ali. Os bares estavam cheios de gente vendo jogo de futebol e em nenhum deles Miguel estava. Lembrou que viu ele indo para o mercado. O mercado fecha no anoitecer, mas os mercadores passavam um tempo a mais para resolver pendência de estoque, receber mercadoria ou fechar o caixa do dia.
Dito e feito. A peixaria estava fechada, mas tinha luz acesa lá dentro.
Antônio se esgueirou para saber se conseguia ouvir alguém, já que as portas estavam fechadas. A noite fria e o cheiro de peixe preenchiam o local. Antônio pensou se a porta dos fundos não estaria aberta. Fez o arrodeio e tentou entrar. Os becos escuros do mercado e a pouca passagem de pessoas pelo local fez Antônio baixar a guarda. O golpe veio rápido e no momento exato de um gol. Os fogos estouraram no céu de Águas Rasas e Antônio caiu no chão, desfalecendo no cheiro de peixe.
***
Bento aproveitou o carro que Célia usou para chegar no mercado para colocar os corpos, enquanto Miguel misturava os fatos ensanguentados de peixe ao sangue humano no chão. Nenhum dos dois trocou uma palavra sequer. Sabiam exatamente o que fazer. Os golpes surdos deixaram filetes de sangue, que foram limpos antes de serem colocados os sacos plásticos pretos nas cabeças.
Bento dirigiu até os barcos e Miguel ajudou a colocar os corpos dentro deles. Amarrados com cordas e uma ancora em cada, Miguel entrou no mar e navegou em direção as dunas seguindo o plano. Agora nada mais estaria em seus caminhos. Aquelas pessoas nojentas encontrariam seus verdadeiros túmulos no fundo do oceano. Há muito tempo Miguel estava cansado de viver as chantagens, a subserviência e a mácula de seu corpo e Bento o amava o suficiente para compreender tudo. Ele também estava cansado de reviver seus traumas, adoecer por dentro enquanto os verdadeiros vilões regozijavam a herança de vidas passadas mal vividas. Miguel queria sua liberdade como homem. A liberdade de sua mãe e a liberdade para seguir seu coração. O mundo jamais iria os compreender. Águas Rasas não era mais uma cidade pacata que fedia a peixe e prendia as pessoas em existências vazias. Agora era palco de uma metamorfose incomparável.     
Bento simplesmente pegou o carro e voltou ao casarão onde seu pai bebia e assistia ao jogo com os amigos. Ele passou pela sala sem dar uma palavra e quase sem ser notado. Um sorriso no rosto avisava a todos que não se incomodassem com ele. Ele passou pela porta do seu antigo quarto e observou o corpo inerte da sua avó. Ela estava com o pescoço inclinado para trás, a boca escancarada, os olhos fechados. Ele se aproximou e percebeu que a vida dela havia se esvaído há algum tempo, poupada, finalmente, de ter vivido uma vida sem sentido e repleta de frutos podres. E o maior deles estava na sala. Comemorando o fim de tudo sem saber. Bento fechou a porta do quarto com uma última olhadela no cadáver e seguiu para o quarto do pai, onde estava a chave de sua lancha favorita ao lado de uma garrafa de Whisky irlandês. Eles não iriam embora em barcos pesqueiros e ninguém iria ser poupado.
Miguel chegou ao ponto mais longe da cidade e mais próximo das dunas. O barco estava flutuando com mansidão. Não havia luz para guiá-lo, para não chamar atenção dos pescadores da noite. Ele amarrou uma ancora nos pés do corpo da mulher e atirou no fundo do mar. O corpo desceu rapidamente. O próximo seria o seu querido pai. Velho escroto, retrógrado. Ele amarrou a ancora nos pés dele quando a voz abafada de Antônio rompeu o silêncio.
- Miguel?!
O filho sentiu seu coração disparar. Não poderia mais ouvir aquela foz rouca e infeliz mais um segundo sequer. Ele levantou a ancora enferrujada e desceu com força na cabeça coberta pelo saco preto. O velho se estremeceu. Miguel levantou e desceu a âncora mais três vezes para ter certeza. Teve medo do barco quebrar. Levantou o corpo com cuidado e deixou o mar fazer o seu trabalho. Estava na hora de voltar. Seguiu para a escuridão em direção a uma luz que piscava em uma ordem interessante
No início das dunas, Bento esperava Miguel montado no quadriciclo, ele fazia as luzes piscarem em um ritmo previamente estabelecido por eles. A qualquer momento ele iria aparecer.
Quando Miguel chegou, Bento o abraçou fortemente. O vento frio passou por eles e seguiu em direção as dunas. Montaram no quadriciclo e seguiram para o cais, os braços de Bento agarrados no torso de Miguel. A lancha e as malas arrumadas. Eles iriam embora, finalmente.  
***
Alguns meses depois, Ciça se aprontava em sua casa para visitar Miguel. Pedro e Antônio Neto estavam assistindo televisão. A repercussão ainda era grande. Em uma cidade pequena como aquela, ninguém jamais deixaria a história de lado por muitas gerações.
Ela pegou uma van e seguiu para a capital. Desde que a polícia começou a investigação do caso, Miguel e Bento se mantiveram juntos até o fim. Ciça foi interrogada junto com os filhos sobre o sumiço do marido. A versão sempre era a mesma. Ela não sabia para onde o marido tinha ido, os filhos mais velhos estavam fora e o mais novo estava em casa com o amigo. Assim foi e assim será. Como a polícia não conseguiu explicar as pontas soltas, a cidade o fez. Boatos corriam de que Célia Regina tinha um caso com Antônio, fiel empregado de Naelson, há muito tempo. Seu filho Miguel confirmou a versão e as pessoas no mercado viram quando Célia chamou Antônio no mercado na última vez que foram vistos. Bento contou à policia que a morte de sua avó e a traição da mulher foi demais para o seu pai, que foi encontrado morto no banheiro de seu quarto. Misturou veneno com whisky. O chifre que a cidade inteira imaginou que ele um dia iria descobrir. O filho Bento herdou a peixaria e a vendeu, junto com todos os bens do pai. Célia e Antônio nunca foram encontrados. Nem a lancha que eles usaram para escapar juntos em seu caso de amor proibido.
Ciça repassava a história na cabeça todos os dias para não esquecer. Entre boatos e verdades, o que realmente importava é que ela estava livre e seu filho vivia muito bem estudando com o amigo na capital. Era um sonho se realizando. Seus filhos mais velhos seguiram suas vidas sem se importar com o sumiço do pai. Eles estavam esperando por isso há muito tempo. Era bem normal naquela cidade os homens abandonarem suas famílias por uma nova vida com mulheres bem mais novas. Mulheres não, quengas.

Ciça sorriu, pensando nos segredos de sua vida. Os poucos dentes que lhe sobravam na boca eram suficientes para estampar a beleza da felicidade enquanto ela bordava o enxoval do neto. O que realmente importava para ela restava com ela mesma.



Nenhum comentário:

Postar um comentário