__ Que bom que vocês voltaram. __
Falou Hyde sorrindo. Era um sorriso genuíno. Um sorriso que não era dado há
muito tempo. O quarto estava na penumbra, uma vela no chão iluminava o local.
Em seu rosto havia uma cicatriz fina de um corte que formava uma linha obliqua
do topo de sua orelha direita até o lóbulo da esquerda.
__ Eu preciso contar como eu
consegui voar. __ Continuou Hyde. __ Eu sei que parece um absurdo. Porque
realmente é. Estão vendo minhas asas? __ Ele se levantou da cama, ficou em pé,
descalço, perto da vela e levantou os braços. Doeu. Seu corpo estava com
hematomas e arranhões. Olhou para imensas asas brancas manchadas de sangue.
Algumas penas flutuavam pelo ar quente do quarto, o vento soprava de uma janela
aberta. Hyde não olhava mais para baixo quando falava com seus ouvintes, isso
acontecia antes dele aprender a voar, agora ele olhava firmemente.
__ Eu estava na montanha que falei
pra vocês antes. Aquele lugar pacato, mas que estava me fazendo quase explodir
de dentro pra fora. Isso já explica que o que precisava ser resolvido era
dentro de mim. __ Ele olhou para esquerda, esperou um pouco e acenou a cabeça.
__ Mas também tinham “coisas” que precisavam sair de mim para que eu pudesse
voar. __ Olhou para direita, esperou um pouco e novamente acenou a cabeça.
__ Assim que cheguei na montanha
sempre andei calçado, não queria colocar os pés no chão. Não queria me sujar.
Passei tanto tempo assim que nunca me permiti sentir o calor daquelas pedras,
da grama que tinha lá em cima. A chuva! Eu me escondia da chuva. Eu não queria
me molhar. Eu era cheio de restrições. A coisa que eu mais odiava na minha
vida: restrições. E lá estava eu me restringindo a sentir as coisas por medo de
gostar e não poder mais me culpar pela falta de liberdade que eu me impunha...
__ O silêncio pairou naquele quarto da mesma forma que uma reticência deixa um
vácuo entre um mundo e outro. O corte em seu rosto começou a sangrar.
__ Passei um tempo assim. Olhando
para meus pés. Olhando para o horizonte. E olhando para o céu. Parado. Só
olhando. Tudo que eu precisava estava lá. Só precisava agir. Mas eu ainda
estava com medo de ser bom. De gostar. Sofrer com o que eu já sabia era tão
confortável. Não teria problema nenhum em colocar os pés descalços na montanha,
eu queria colocar. Eu queria sentir a chuva. O vento. Eu queria voar. Mas, até
aquele dia, desde o momento em que cheguei na montanha, eu só pensava no que
poderia ser. Eu não estava aguentando mais. E a força do medo me fazia ficar
parado. Então eu pensei no que um filósofo escreveu um dia: “E se eu vivesse
minha vida mais mil vezes e elas fossem completamente iguais àquela porque eu
estava com medo de ser livre?”
Hyde não precisou olhar para os
lados para acenar a cabeça desta vez. A vela estava na metade. A chama era alta
e espiralava com força. O suor que descia por seu rosto se misturava ao sangue
de seu corte
__ Primeiro eu fiquei descalço.
Assim, um dia abri os olhos. Percebi quanto tempo estava perdendo e fiquei
descalço. Não queria saber o que me aconteceria porque minha vida até aquele
momento era pensar nisso. E por isso eu não fazia nada. Eu fiz. __ Uma lágrima
desceu de seu olho direito e se misturou ao suor e ao sangue. O gosto desta
alquimia em sua boca era paradoxal. Doce e amargo ao mesmo tempo. Com gosto de
vida.
__ Eu senti o calor da pedra. O frio
da grama e do orvalho. E foi a melhor sensação que eu já tinha sentido na minha
vida. Até o vento soprou mais forte. Eu respirei fundo. Chorei. Eu vi os
relâmpagos no céu. Os trovões ribombaram forte lá em cima. Eu estava com medo.
Muito. Tinha alguma coisa dentro de mim que eu precisava retirar pra dar o
próximo passo. Nunca fui uma coisa só. Sempre fui essa inconstância toda. __
Mais sangue. __ E naquela hora eu apenas estava aceitando as coisas. E o
exorcismo tinha começado já em cima dos calçados.
Outro sorriso genuíno.
__ E ao mesmo tempo que eu queria me
livrar daquelas “coisas” dentro de mim eu sabia que era tudo eu. Só que sem
controle. Eu precisava organizar o caos dentro de mim pra poder extrair o melhor
dos dois mundos: o interno e o externo. O famigerado equilíbrio. Isso às vezes
acontece, o equilíbrio, mas nunca é constante. É inconstante, igual a mim.
Igual a nós. Quando a minha própria carne pede por alimento e quando esse
alimento me faz mostrar uma face desconhecida, mas que é a que eu mais quero
conhecer de mim mesmo. E é a que agora fala com vocês. Sem medo. Livre. __ Hyde
respirou fundo enquanto sorria. As asas tremeram soltando algumas penas que
espiralavam no ar como a chama da vela.
__ Eu corri. Não lembro quanto tempo
passei ali, com os pés descalços. Só sei que se eu não começasse a correr eu
ficaria parado de novo. Eu me vi como se fosse uma projeção astral e vários de
mim estivessem comigo correndo naquele momento. Eu não me enxergava. Eu pensava
que me enxergava. Eu precisei sair de mim para me ver de verdade, me dividir em
dois... Em três... Enquanto eu corria eu percebia que nunca estava só porque
estava comigo mesmo. E nós iríamos pular daquela montanha. Porque se a gente
fosse ficar com os pés no chão nós pararíamos em outra montanha e tudo iria se
repetir. Voando, livres, poderíamos sobrevoar a mesma montanha, mas ter a
liberdade. Corremos. De todos os lados. A chuva caia com força, eu sentia tudo.
A terra, o ar, a água e o fogo, este vinha de dentro de mim. Eu corri. E pulei.
E agora estamos aqui.
Hyde olhou para os lados novamente.
A chama da vela deu seu último suspiro em espiral. As penas que flutuavam pelo
quarto caíram no chão. O sangue parou de pingar e o vento de soprar. Em cada
lado um espelho. Em cada espelho um Hyde o observava. O da esquerda tinha o
rosto escuro, apenas seus olhos podiam ser vistos. O da direita sorria sem
parar, mas seus olhos não sorriam junto. Hyde se sentia confortável ali. Estava
entre os seus. E não havia mais medo, nem restrições. As coisas só eram como
eram. Suas asas chacoalharam enquanto aquele sorriso genuíno aparecia mais uma
vez em seu rosto.

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