segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Asas




            __ Que bom que vocês voltaram. __ Falou Hyde sorrindo. Era um sorriso genuíno. Um sorriso que não era dado há muito tempo. O quarto estava na penumbra, uma vela no chão iluminava o local. Em seu rosto havia uma cicatriz fina de um corte que formava uma linha obliqua do topo de sua orelha direita até o lóbulo da esquerda.
            __ Eu preciso contar como eu consegui voar. __ Continuou Hyde. __ Eu sei que parece um absurdo. Porque realmente é. Estão vendo minhas asas? __ Ele se levantou da cama, ficou em pé, descalço, perto da vela e levantou os braços. Doeu. Seu corpo estava com hematomas e arranhões. Olhou para imensas asas brancas manchadas de sangue. Algumas penas flutuavam pelo ar quente do quarto, o vento soprava de uma janela aberta. Hyde não olhava mais para baixo quando falava com seus ouvintes, isso acontecia antes dele aprender a voar, agora ele olhava firmemente.
            __ Eu estava na montanha que falei pra vocês antes. Aquele lugar pacato, mas que estava me fazendo quase explodir de dentro pra fora. Isso já explica que o que precisava ser resolvido era dentro de mim. __ Ele olhou para esquerda, esperou um pouco e acenou a cabeça. __ Mas também tinham “coisas” que precisavam sair de mim para que eu pudesse voar. __ Olhou para direita, esperou um pouco e novamente acenou a cabeça.
            __ Assim que cheguei na montanha sempre andei calçado, não queria colocar os pés no chão. Não queria me sujar. Passei tanto tempo assim que nunca me permiti sentir o calor daquelas pedras, da grama que tinha lá em cima. A chuva! Eu me escondia da chuva. Eu não queria me molhar. Eu era cheio de restrições. A coisa que eu mais odiava na minha vida: restrições. E lá estava eu me restringindo a sentir as coisas por medo de gostar e não poder mais me culpar pela falta de liberdade que eu me impunha... __ O silêncio pairou naquele quarto da mesma forma que uma reticência deixa um vácuo entre um mundo e outro. O corte em seu rosto começou a sangrar.
            __ Passei um tempo assim. Olhando para meus pés. Olhando para o horizonte. E olhando para o céu. Parado. Só olhando. Tudo que eu precisava estava lá. Só precisava agir. Mas eu ainda estava com medo de ser bom. De gostar. Sofrer com o que eu já sabia era tão confortável. Não teria problema nenhum em colocar os pés descalços na montanha, eu queria colocar. Eu queria sentir a chuva. O vento. Eu queria voar. Mas, até aquele dia, desde o momento em que cheguei na montanha, eu só pensava no que poderia ser. Eu não estava aguentando mais. E a força do medo me fazia ficar parado. Então eu pensei no que um filósofo escreveu um dia: “E se eu vivesse minha vida mais mil vezes e elas fossem completamente iguais àquela porque eu estava com medo de ser livre?”
            Hyde não precisou olhar para os lados para acenar a cabeça desta vez. A vela estava na metade. A chama era alta e espiralava com força. O suor que descia por seu rosto se misturava ao sangue de seu corte
            __ Primeiro eu fiquei descalço. Assim, um dia abri os olhos. Percebi quanto tempo estava perdendo e fiquei descalço. Não queria saber o que me aconteceria porque minha vida até aquele momento era pensar nisso. E por isso eu não fazia nada. Eu fiz. __ Uma lágrima desceu de seu olho direito e se misturou ao suor e ao sangue. O gosto desta alquimia em sua boca era paradoxal. Doce e amargo ao mesmo tempo. Com gosto de vida.
            __ Eu senti o calor da pedra. O frio da grama e do orvalho. E foi a melhor sensação que eu já tinha sentido na minha vida. Até o vento soprou mais forte. Eu respirei fundo. Chorei. Eu vi os relâmpagos no céu. Os trovões ribombaram forte lá em cima. Eu estava com medo. Muito. Tinha alguma coisa dentro de mim que eu precisava retirar pra dar o próximo passo. Nunca fui uma coisa só. Sempre fui essa inconstância toda. __ Mais sangue. __ E naquela hora eu apenas estava aceitando as coisas. E o exorcismo tinha começado já em cima dos calçados.
            Outro sorriso genuíno. 
            __ E ao mesmo tempo que eu queria me livrar daquelas “coisas” dentro de mim eu sabia que era tudo eu. Só que sem controle. Eu precisava organizar o caos dentro de mim pra poder extrair o melhor dos dois mundos: o interno e o externo. O famigerado equilíbrio. Isso às vezes acontece, o equilíbrio, mas nunca é constante. É inconstante, igual a mim. Igual a nós. Quando a minha própria carne pede por alimento e quando esse alimento me faz mostrar uma face desconhecida, mas que é a que eu mais quero conhecer de mim mesmo. E é a que agora fala com vocês. Sem medo. Livre. __ Hyde respirou fundo enquanto sorria. As asas tremeram soltando algumas penas que espiralavam no ar como a chama da vela.
            __ Eu corri. Não lembro quanto tempo passei ali, com os pés descalços. Só sei que se eu não começasse a correr eu ficaria parado de novo. Eu me vi como se fosse uma projeção astral e vários de mim estivessem comigo correndo naquele momento. Eu não me enxergava. Eu pensava que me enxergava. Eu precisei sair de mim para me ver de verdade, me dividir em dois... Em três... Enquanto eu corria eu percebia que nunca estava só porque estava comigo mesmo. E nós iríamos pular daquela montanha. Porque se a gente fosse ficar com os pés no chão nós pararíamos em outra montanha e tudo iria se repetir. Voando, livres, poderíamos sobrevoar a mesma montanha, mas ter a liberdade. Corremos. De todos os lados. A chuva caia com força, eu sentia tudo. A terra, o ar, a água e o fogo, este vinha de dentro de mim. Eu corri. E pulei. E agora estamos aqui.
            Hyde olhou para os lados novamente. A chama da vela deu seu último suspiro em espiral. As penas que flutuavam pelo quarto caíram no chão. O sangue parou de pingar e o vento de soprar. Em cada lado um espelho. Em cada espelho um Hyde o observava. O da esquerda tinha o rosto escuro, apenas seus olhos podiam ser vistos. O da direita sorria sem parar, mas seus olhos não sorriam junto. Hyde se sentia confortável ali. Estava entre os seus. E não havia mais medo, nem restrições. As coisas só eram como eram. Suas asas chacoalharam enquanto aquele sorriso genuíno aparecia mais uma vez em seu rosto.

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