sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

ATÉ O AMANHECER


Um conto de Dead By Daylight


Kelly corria sem fôlego pelos corredores do prédio abandonado. Quase não puxava o ar. O desespero já tinha sido bem maior quando ela percebeu o que estava a perseguindo. Tinha combinado com os outros que ela encontraria o jeito de atrair o monstro para que conseguissem terminar a missão. Ela não entendia porque havia sido escolhida e nem como tinha sido transportada para aquele lugar decrépito com fedor de morte em cada canto e demorou para entender de uma vez por todas que o vulto nos milhares de espelhos espalhados pelo local estava ali para sacrificá-los em um ritual macabro de magia negra.
 Enquanto reunia o pouco de coragem que lhe restava, observando cautelosamente os cômodos escuros cheios de tralhas, ela percebeu que o único espelho ali estava virado para a porta, ao lado de uma janela aberta que dava para uma piscina vazia. Era o local perfeito para fazer a coisa mais estúpida do mundo. Ela se aproximou no espelho, prendendo a respiração ruidosa. Não tinha escutado gritos, logo os companheiros estavam vivos. Ainda. O espelho era quase de seu tamanho, como todos os outros encontrados no local. Estava manchado com sangue seco, talvez de antigas vítimas. Quantas já deveriam ter passado por ali e mirado seu próprio reflexo por alguns segundos antes que os olhos do demônio espreitassem de volta?
Sem abrir espaço para mais medo, Kelly sentiu o coração disparar. O espelho começou a escurecer seu reflexo, como se uma névoa infernal tomasse conta e ela não aguentou. O grito cortou a noite. Ele já sabia onde ela estava. Era só uma questão de segundos.
***
Robert saiu silenciosamente da cabine em que estava escondido quando escutou o eco de um grito. Será que a coisa tinha conseguido pegar Kelly? Ele não poderia ficar ali parado pensando mais sobre isso. Precisava sair vivo daquela situação. A máquina jazia no lado esquerdo da cabana, de frente para um enorme espelho grosso. Era arriscado demais, mas ele não tinha muita alternativa. Os outros estavam se sacrificando para que ele conseguisse consertar aquilo o mais depressa possível. Passou pelo espelho sem olhar seu reflexo, Ele descobriu que se não olhasse para o espelho, o espelho não olharia de volta. Isso não impediria que o monstro assassino adentrasse naquele momento e o agarrasse com muita força, prometendo horrores de tortura e sofrimento. Ele já tinha sido pego uma vez, não poderia mais – não tinha mais energia vital – para sobreviver outra daquelas. Se não fosse Roger e Kelly, ele estaria indo para o covil da criatura, ser devorado aos poucos, pendurado como uma carne fresca em um abatedouro. O sangue drenado para o banquete final.
Mais um pouco e aquele gerador estaria pronto. Restaria apenas um e ninguém tinha morrido. Ainda.
***
Demorou para entender que o realmente estava acontecendo. Até cair a ficha, Laquanda passou o dia todo tentando abrir os portões de saída e entrada naquele cenário de horror. Quando todos acordaram pela manhã, não passava de um lugar abandonado, esquecido pela vida e cheio armadilhas estranhas, espelhos e uma presença sinistra que fazia os pelos arrepiarem. Não demorou muito para que ela conhecesse os outros confinados. Roger, um nerd gordo, Kelly, uma ginasta olímpica e Robert, um mecânico dessas oficinas de beira de esquina. Cada um deles foi muito importante para descobrir o que estavam fazendo naquele local estranho e porque todo mundo sentia como se algo os espreitasse de vez em quando.
Juntos eles fizeram uma varredura no local. Não era um espaço muito grande. Dava para ver bem de todos os quatro cantos as muralhas altas, grossas e escorregadias que cercava o local. Elas acabavam em dois grandes portões que tinham uma abertura eletrônica. Desligada. Robert e Roger notaram que o local inteiro possuía fios subterrâneos e câmeras por todos os lugares. Tudo desligado. Foi assim até o anoitecer, quando uma névoa densa começou a se espalhar pelo ambiente e tornou tudo mais desagradável do que já era. Contudo, Roger percebeu: As câmeras ligaram, mas os portões continuavam fechados, ligados pelos fios até geradores espalhados pelo lugar. Robert, como era mecânico, descobriu que eles estavam inteiros, apenas desmontados de forma planejada. Ele reuniu as porcas e parafusos, ligou os fios e ensinou todo mundo a fazer aquilo funcionar. Laquanda, que não era muito boa em quase nada, ligou um fio com outro que não deveria. O estrondo assustou todo mundo. E foi aí que tudo começou...
***
      Kelly corria pelo prédio com o demônio em seu encalço. Ela não conseguiu conter o grito quando ele se aproximou e atravessou o espelho como se ele fosse água. Ela não entendia como ele conseguia enxergá-la, visto que não havia olhos, apenas uma cavidade oca e sangrenta com um odor nauseante. Mesmo assim a cabeça se virava na direção e o monstro perseguia implacavelmente. Kelly saltava as janelas e tralhas que apareciam pela frente. O monstro, contudo, não tinha essa habilidade e acabava tendo que contornar os obstáculos, dando tempo a ela.
Com todas as dicas de Roger em mente, a ginasta sabia que não poderia ficar muito tempo correndo dele, porque ele acelerava gradualmente à medida que perseguia. A segunda dica foi que ele conseguia – de alguma forma – usar os espelhos como transporte. Se olhassem para o reflexo no espelho ele saberia. Laquanda teve a brilhante a ideia de quebrar um dos espelhos e isso foi a pior coisa que ela poderia ter feito. A criatura ficou repleta de cacos de vidro encravadas na pele e ainda mais assustadora. Quando Robert foi pego pela criatura consertando mais um dos geradores, Roger e Kelly tentaram chamar atenção do monstro para que ele escapasse e os cacos de vidro tornaram tudo mais difícil. Robert somente escapou porque Roger, corajoso, se colocou na frente da criatura, mirando uma lanterna que tinha encontrado no meio da bagunça. Conseguiram escapar por pouco...
***
A escuridão avançava pela madrugada e a criatura estava começando a temer, pela primeira vez, os sussurros da Entidade. Apesar de conseguir rastrear os rostos de quem espreitou o próprio reflexo pelos espelhos malditos, o Atormentador não estava lidando com um grupo de presas comum. Esses eram diferentes, eles eram mais espertos e habilidosos. Não era a primeira vez que ele havia sido convocado para mais uma caçada de sacrifício, mas era a primeira em que estava sentindo o peso da derrota. Nunca havia poupado uma alma sequer e agora era obrigado a farejar com mais força se quisesse, pelo menos matar uns dois antes do raiar do dia. Dos sete geradores espalhados pelo mapa, restavam três. Eles só sabiam da existência de mais dois, nunca exploraram o canto sul com mais calma, talvez pela falta de portões de saída daquele lado, talvez pelo medo intenso de não conseguir voltar...
O cheiro de sangue fresco no rastro da garota mais nova atiçava ainda mais o monstro. Ele queria estripá-la, fazê-la sofrer pela audácia de escapar pela segunda vez. Ela estava começando a entender o jogo dos espelhos e estava usando isso para atraí-lo para o mais longe possível do gerador que ficava na cabana. Quando os sussurros da Entidade indicaram mais um reflexo no espelho, a criatura se deslocou rapidamente na escuridão do mundo espelhado e avançou no infeliz que ousou provocá-lo.
Era o gorducho. Tremendo no canto da sala, tentando saltar uma barricada. A criatura conseguia ouvir o coração dele batendo descontroladamente. Ele não ia conseguir a tempo...
***
Um alarme sonoro de longo alcance permitiu que todos aguçassem seus sentidos. Kelly, imediatamente observou que as luzes do painel do portão mais próximo se acenderam. Robert tinha conseguido consertar o último gerador. Enquanto corria, ela percebeu um estranho emaranhado de ossos, gravetos e caveiras humanas iluminado por velas. Ela não tinha mais tempo para descobrir o que era aquilo. Provavelmente parte do ritual insano que acontecia naquele lugar.
Ela se aproximou dos portões. Seu coração batendo mais do que nunca. A energização parecia acontecer de forma muito lenta. De repente, do meio de altos arbustos espinhosos Laquanda surgiu mancando, a perna dilacerada deixando um rastro.
- Kelly! Kelly! Ele pegou o Roger - aquela coisa - , pegou o Roger e levou para um buraco!
Kelly sentiu a adrenalina em cada parte do seu corpo. Não podiam deixar Roger nas garras no monstro. Talvez nem vivo estivesse mais, mas precisavam ter certeza. Antes de ir, ela ajudou Laquanda a fazer um torniquete. O sangramento tinha parado, finalmente. Laquanda contudo, não esperou para descansar mais, correu gritando loucamente sem rumo. Foi quando Kelly percebeu que o monstro estava vindo, decidido, na direção dela.
***
  Robert encontrou um portão energizado depois de ter se esgueirado para fora da cabana e rumado para o lado norte. Por um segundo, seu coração bateu muito rápido e ele sentiu um zumbido estranho. A criatura tinha passado por ali, certamente. Sem mais delongas, ele puxou a alavanca e esperou. A qualquer momento a porta abriria.
***
Laquanda estava atrás de uns caixotes, observando a destreza de Kelly. Ela não estava ferida e caso a criatura chegasse a feri-la, pelo menos ela tinha mais chance. Laquanda, por sua vez, com aquele torniquete podre, mancando, ela seria um alvo fácil para a criatura.
Subitamente, e fazendo Laquanda pular de susto, um outro aviso sonoro ecoou por todo o lugar. Apavorada, ela seguiu correndo no momento em que viu a criatura descer um golpe cheio de cacos de vidro na cabeça de Kelly. Tudo estava perdido.
***
Como previsto pelo Atormentador, as presas não tinham ideia da oferenda que tinha sido feita para que a Entidade lhe abençoasse com mais força. Ele mesmo a fez com os ossos das vítimas anteriores. Era provável que apenas um deles tenha escapado. O gordo estava pendurado no ponto mais profundo do local, o covil. A outra moça, a desesperada, era se arrastando, pronta para morrer a qualquer momento. E a corredora atrevida finalmente iria receber o que merecia. Ele a carregou nas costas aproveitando que ela não conseguia se debater com força por causa dos pedaços de vidro lhe perfurando a carne a cada tentativa. Ninguém iria ajudá-la. Até que foi uma boa caçada, mais empolgante dos que as outras. Quando ela observou o ganho ensanguentado erguido próximo de uma árvore, o Atormentador sentiu a agonia crescer violentamente. Nada poderia ser feito. Ele içou o corpo magro dela no ar e mirou. Foi rápido, fácil e profundo. O grito atravessou a arena da morte e a criatura sentiu que alguém estava próximo demais de seu covil...
***
Robert não aguentava mais esperar. A salvação estava ali diante dele e tudo o que ele conseguia escutar eram gritos de tormento e dor. Nem sinal de Roger, Laquanda ou Kelly. Ele tinha quase certeza que o último grito foi de Kelly, muito próximo de onde supostamente estaria o segundo portão.
A coração disparou. Não dava mais para esperar.
Robert deixou a saída para trás e adentrou na névoa, correndo na direção do segundo portão. A qualquer momento ele poderia dar de cara com o monstro, mas jamais ele deixaria com companheiros para trás.
Foi então que ele viu. Como um enorme pernil bovino pendurado em um ganho de abatedouro, estava Kelly quase desfalecida. O sangue empoçando no chão.
- Meu Deus! Kelly, eu vou te tirar daí aguenta firme.
Ela apenas piscou os olhos, enfraquecida, tentando focar no ambiente, rezando para que a criatura não estivesse a usando de isca.
***
Roger estava praticamente morto, lutando para se manter acordado e sentindo que sua visão estava ficando escurecida com formas em formas de garras ameaçando agarrar deu corpo pendurado. Ele estava em uma espécie de quarto subterrâneo de tortura lavado de sangue seco e com ganchos por todos os lugares. Não dava mais para esperar. Ele sabia que não iria escapar vivo, então decidiu juntar o que lhe restava de força, agarrou a corrente do gancho e tentou se projetar para cima, retirando o ganho do corpo, mas ele era pesado demais e suas mãos ensanguentadas escorregaram. A dor foi tão intensa que ele nem percebeu que seus pés tocaram algo sólido, mas não era o chão.
Laquanda usou suas costas para impulsionar Roger, que recobrou o fôlego, o corpo em choque, e fez a maior força de sua vida para escapar do gancho.
O coração de ambos estava disparado. Roger tombou no chão cheio de adrenalina. Não dava mais para ficar ali. Tinha apenas uma saída: uma escada em espiral que levava ao terreno na superfície. Um zumbido estranho os alertou. A criatura estava perto. Perto demais...
***
Robert abriu o segundo portão de saída enquanto Kelly descansava próximo. Talvez Roger e Laquanda tivessem escapado pela outra saída. Ele não tinha certeza.
- Eu abri o outro portão. Laquanda e Roger podem ter...
- Não, Laquanda está ferida e Roger foi pego pela criatura. Ele me disse que viu isso acontecer. Precisamos sair daqui logo, Robert, ou TODOS nós morremos antes do nascer do dia.
Robert baixou a cabeça. Mais uma vez a sua humanidade posta à prova. Ele inspirou fundo.
- Eu estava pronto para sair, Kelly. Mas voltei por você. Você acharia melhor se eu tivesse pensado do seu jeito?
Foi a vez de Kelly baixar a cabeça.
- É, foi o que eu imaginei. Fique encostada aqui. Eu vou voltar com os outros. Se eu não voltar até o raiar, vá. Corra. O mais rápido que conseguir. Está me ouvindo?
Ela assentiu e ele disparou novamente no meio da névoa.
***
Laquanda entrou em um nos armários próximos no instante em que a criatura desceu as escadas. Roger estava escondido atrás de uma da parede de madeira que serviam de sustento. A qualquer momento a criatura iria passar pelo armário e vasculhar o local, encontrando Roger desprevenido.
O monstro parecia saber que tinha gente por ali. Ele estava parado, sem fazer barulho, apurando um deslize.
Ele andou mais um pouco. Parecia que deslizava, pois som algum era emitido. Dava para sentir o odor pútrido que ele exalava. O corpo esquelético, retorcido e os membros enormes como tentáculos com garras. Ele possuía duas fendas no lugar do nariz e farejava de forma horrenda.
Laquanda estava juntando forças e coragem para abrir o armário e sair correndo escada acima. Dessa forma Roger pode ser salvo daquele lugar infernal. A criatura viria atrás dela com toda a ferocidade, mas não havia mais nada o que pudesse ser feito.
Ela tomou fôlego, encostou a palma da mão na porta do armário. Estava pronta. A criatura já estava perto demais de Roger. Talvez já devesse ter sentido o cheiro do sangue fresco.
- Roger?
A voz de Robert desceu pelas escadas. A criatura se empertigou. Silenciosamente ela se deslocou para a entrada. Laquanda conseguia ver Roger se esgueirando por trás do monstro e a sombra de Robert descendo para a morte...
Foi tudo muito rápido. A criatura avançou loucamente passando pela armaria onde Laquanda estava escondida. Roger tinha a intenção de pular na criatura para salvar Robert e Robert apenas gritou de terror, incapaz de se mover.
A porta do armário bateu com tudo na cara do monstro quando ele atacou. A criatura urrou de ódio e dor. Roger cambaleou por cima dela e Laquanda apenas correu escada acima, com os amigos em seu encalço.
***
- Meu Santo Deus! O que era aquela coisa?!
Robert estava guiando todos enquanto corria exaustivamente em direção ao portão. Ele sabia muito bem onde estavam. Ao olhar para trás, ele viu que Laquanda conseguia correr, mas dava uma ou duas mancadas de vez em quando. Roger, no entanto, era pouco atlético e olhava constantemente para trás, a mão no peito, arfando em um misto de horror e cansaço.
Robert sabia que o momento alcançaria um dos dois a qualquer momento. Ele ganhava velocidade e mirava nas costas de Roger.
O golpe veio. Roger se desequilibrou. Estava perdido.
Laquanda tentou parar, mas a criatura não quis pegar Roger. Ela continuou a caçada.
Robert apontou para os portões de saída. Menos de vinte metros eles estariam salvos.
O monstro assassino estava quase os alcançando quando Robert atravessou os portões, sem conseguir mais olhar para trás.
A névoa densa o engoliu.
***
Roger jazia no chão, acabado. A barriga pesava enquanto ele se arrastava para longe da terra e do mato seco. Havia uns caixotes empilhados por perto. Talvez se ele se escondesse atrás dele a criatura não o veria.
Enquanto se arrastava, ele sentia o resto de sangue que lhe estava sair pelas feridas provocadas pelas garras profundas do monstro. Triste fim. E pensar que na noite anterior ele tinha ido para uma festa pela primeira vez e beijado uma garota. Ele não entendeu como tudo aquilo estava acontecendo com ele. Atrás dos entulhos tinha uma pilha de madeiras velhas e pallets em pedaços, ele deitou por ali e sentiu o coração bater mais rápido. Ele sabia o que aquilo significava.
***
Kelly não aguentava mais. Apesar do sermão de Robert, ela não conseguia mais se manter acordada. Estava cansada, com fome, machucada e apavorada. Olhou para trás, mais uma vez e tudo o que ouvia era o silêncio. Atravessou a saída. A névoa espessa a engoliu.
***
   Três saíram. TRÊS!
O Atormentador abriu bem as fendas no rosto retorcido e começou a procurar. Ele tinha deixado o corpo ali, pronto para o abate. Aquele não seria sacrificado como deveria ser, aquele seria morto de forma especial.
A criatura gritou de raiva. Seu rugido pode ser ouvido pelos quatros cantos. Era o jeito apavorar as presas. Ele procurou pelas redondezas, ele jamais escaparia, pois assim que a criatura o visse, agarraria com força e o mataria com as próprias mãos.
O rastro de sangue o denunciou.
O monstro chegou até mesmo a sentir fome. Comeria ele vivo, talvez?
Em uma pilha de caixotes, era onde o rastro terminava.
A criatura foi se aproximando, aproximando...
O corpo estava lá, entrando por um buraco escuro no chão. A escotilha!
A criatura avançou com todo ódio, força e ferocidade, mas a presa deslizou completamente para dentro. 
A respiração ruidosa do monstro passou de raiva para medo. Sem o sacrifício necessário, a Entidade iria atrás dele, o obrigando a caçar vítimas naquele mundo de sofrimento por toda a eternidade. Talvez a Entidade tenha decidido ajudar aqueles quatro, punindo o assassino por sua soberba infernal. Talvez tenha apenas sido sorte. 
A criatura jamais saberia, pois os primeiros raios de sol rompiam a aurora.
Tudo estava acabado.

O Atormentador
 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Asas




            __ Que bom que vocês voltaram. __ Falou Hyde sorrindo. Era um sorriso genuíno. Um sorriso que não era dado há muito tempo. O quarto estava na penumbra, uma vela no chão iluminava o local. Em seu rosto havia uma cicatriz fina de um corte que formava uma linha obliqua do topo de sua orelha direita até o lóbulo da esquerda.
            __ Eu preciso contar como eu consegui voar. __ Continuou Hyde. __ Eu sei que parece um absurdo. Porque realmente é. Estão vendo minhas asas? __ Ele se levantou da cama, ficou em pé, descalço, perto da vela e levantou os braços. Doeu. Seu corpo estava com hematomas e arranhões. Olhou para imensas asas brancas manchadas de sangue. Algumas penas flutuavam pelo ar quente do quarto, o vento soprava de uma janela aberta. Hyde não olhava mais para baixo quando falava com seus ouvintes, isso acontecia antes dele aprender a voar, agora ele olhava firmemente.
            __ Eu estava na montanha que falei pra vocês antes. Aquele lugar pacato, mas que estava me fazendo quase explodir de dentro pra fora. Isso já explica que o que precisava ser resolvido era dentro de mim. __ Ele olhou para esquerda, esperou um pouco e acenou a cabeça. __ Mas também tinham “coisas” que precisavam sair de mim para que eu pudesse voar. __ Olhou para direita, esperou um pouco e novamente acenou a cabeça.
            __ Assim que cheguei na montanha sempre andei calçado, não queria colocar os pés no chão. Não queria me sujar. Passei tanto tempo assim que nunca me permiti sentir o calor daquelas pedras, da grama que tinha lá em cima. A chuva! Eu me escondia da chuva. Eu não queria me molhar. Eu era cheio de restrições. A coisa que eu mais odiava na minha vida: restrições. E lá estava eu me restringindo a sentir as coisas por medo de gostar e não poder mais me culpar pela falta de liberdade que eu me impunha... __ O silêncio pairou naquele quarto da mesma forma que uma reticência deixa um vácuo entre um mundo e outro. O corte em seu rosto começou a sangrar.
            __ Passei um tempo assim. Olhando para meus pés. Olhando para o horizonte. E olhando para o céu. Parado. Só olhando. Tudo que eu precisava estava lá. Só precisava agir. Mas eu ainda estava com medo de ser bom. De gostar. Sofrer com o que eu já sabia era tão confortável. Não teria problema nenhum em colocar os pés descalços na montanha, eu queria colocar. Eu queria sentir a chuva. O vento. Eu queria voar. Mas, até aquele dia, desde o momento em que cheguei na montanha, eu só pensava no que poderia ser. Eu não estava aguentando mais. E a força do medo me fazia ficar parado. Então eu pensei no que um filósofo escreveu um dia: “E se eu vivesse minha vida mais mil vezes e elas fossem completamente iguais àquela porque eu estava com medo de ser livre?”
            Hyde não precisou olhar para os lados para acenar a cabeça desta vez. A vela estava na metade. A chama era alta e espiralava com força. O suor que descia por seu rosto se misturava ao sangue de seu corte
            __ Primeiro eu fiquei descalço. Assim, um dia abri os olhos. Percebi quanto tempo estava perdendo e fiquei descalço. Não queria saber o que me aconteceria porque minha vida até aquele momento era pensar nisso. E por isso eu não fazia nada. Eu fiz. __ Uma lágrima desceu de seu olho direito e se misturou ao suor e ao sangue. O gosto desta alquimia em sua boca era paradoxal. Doce e amargo ao mesmo tempo. Com gosto de vida.
            __ Eu senti o calor da pedra. O frio da grama e do orvalho. E foi a melhor sensação que eu já tinha sentido na minha vida. Até o vento soprou mais forte. Eu respirei fundo. Chorei. Eu vi os relâmpagos no céu. Os trovões ribombaram forte lá em cima. Eu estava com medo. Muito. Tinha alguma coisa dentro de mim que eu precisava retirar pra dar o próximo passo. Nunca fui uma coisa só. Sempre fui essa inconstância toda. __ Mais sangue. __ E naquela hora eu apenas estava aceitando as coisas. E o exorcismo tinha começado já em cima dos calçados.
            Outro sorriso genuíno. 
            __ E ao mesmo tempo que eu queria me livrar daquelas “coisas” dentro de mim eu sabia que era tudo eu. Só que sem controle. Eu precisava organizar o caos dentro de mim pra poder extrair o melhor dos dois mundos: o interno e o externo. O famigerado equilíbrio. Isso às vezes acontece, o equilíbrio, mas nunca é constante. É inconstante, igual a mim. Igual a nós. Quando a minha própria carne pede por alimento e quando esse alimento me faz mostrar uma face desconhecida, mas que é a que eu mais quero conhecer de mim mesmo. E é a que agora fala com vocês. Sem medo. Livre. __ Hyde respirou fundo enquanto sorria. As asas tremeram soltando algumas penas que espiralavam no ar como a chama da vela.
            __ Eu corri. Não lembro quanto tempo passei ali, com os pés descalços. Só sei que se eu não começasse a correr eu ficaria parado de novo. Eu me vi como se fosse uma projeção astral e vários de mim estivessem comigo correndo naquele momento. Eu não me enxergava. Eu pensava que me enxergava. Eu precisei sair de mim para me ver de verdade, me dividir em dois... Em três... Enquanto eu corria eu percebia que nunca estava só porque estava comigo mesmo. E nós iríamos pular daquela montanha. Porque se a gente fosse ficar com os pés no chão nós pararíamos em outra montanha e tudo iria se repetir. Voando, livres, poderíamos sobrevoar a mesma montanha, mas ter a liberdade. Corremos. De todos os lados. A chuva caia com força, eu sentia tudo. A terra, o ar, a água e o fogo, este vinha de dentro de mim. Eu corri. E pulei. E agora estamos aqui.
            Hyde olhou para os lados novamente. A chama da vela deu seu último suspiro em espiral. As penas que flutuavam pelo quarto caíram no chão. O sangue parou de pingar e o vento de soprar. Em cada lado um espelho. Em cada espelho um Hyde o observava. O da esquerda tinha o rosto escuro, apenas seus olhos podiam ser vistos. O da direita sorria sem parar, mas seus olhos não sorriam junto. Hyde se sentia confortável ali. Estava entre os seus. E não havia mais medo, nem restrições. As coisas só eram como eram. Suas asas chacoalharam enquanto aquele sorriso genuíno aparecia mais uma vez em seu rosto.

O QUE RESTOU DE NÓS


O plano era navegar pelo atlântico, quase sem rumo, procurando um lugar bonito para alcançar o sossego de uma vida com amor. Não estava nada anotado, bem planejado, revisto ou até mesmo compartilhado. Era uma ideia surgida dos devaneios de Bento em uma das tardes em que passava a tarde estudando na biblioteca da faculdade. Ele cursava Direito na capital. O pai queria que ele não vivesse no meio do pescado como seus empregados. O filho teria que ser advogado ou médico. Talvez engenheiro. Bento escolheu ser advogado, ou talvez tenha apenas acontecido.
Quando foi embora de Águas Rasas para estudar na capital, há seis meses, Bento levou consigo um pouco de medo, amor e saudade. Enquanto arrumava as malas para voltar para aquela cidadezinha litorânea quase esquecida por Deus, o coração dele palpitava e sua garganta travava. Às vezes ria sozinho, produto de boas lembranças. Às vezes ficava encarando o nada por vários minutos seguidos, imaginando o barco à deriva no oceano e os braços de Miguel. Pensar em Miguel doía. E doeu ainda mais quando ele precisou deixa-lo em Águas Rasas e rumar para a capital. Se falavam bastante graças à tecnologia, mas a vontade intensa dos abraços e da presença estava longe de ser saciada.
Quando Bento perdeu a mãe para o câncer, ele tinha treze anos. Não havia parentes próximos com quem pudesse ficar e sua única alternativa foi morar com o pai. A mãe havia se divorciado do pai há anos. Desde que descobrira a traição. Desde então mãe e filho moravam juntos em um condomínio de subúrbio na capital e o pai crescia uma peixaria na cidade pesqueira de Águas Rasas como sua nova companheira. Vinte anos mais nova. A mãe sempre gostava de repetir isso enquanto sentia fortes dores no peito, indícios de um trauma que gerou uma força negra que a tomou por completo em cinco longos anos. Ele não sabia, mas a vontade de viver dela se esvaiu quando acordou pela primeira vez em sua cama vazia. Nada era mais o mesmo.
Quando Bento chegou na casa dos pais pela primeira vez, ele não conseguia entender quase nada do que estava acontecendo. O pai morava em um casarão de aspecto antigo por fora, mas bem decorado e modernizado por dentro, fruto de seu progresso no ramo da pescaria. Bento descobriu que a casa foi herança de seu pai, além de uma frota de barcos pesqueiros e alguns empregados. A pesca estava nas veias da família. Talvez seja por isso que Bento teve a brilhante ideia de tomar um dos barcos do pai e fugir para bem longe. Foi quando ele conheceu Miguel e tudo mudou.
Miguel era filho de um dos pescadores que trabalhavam para o pai de Bento. Assim como o pai, o filho sabia muito sobre peixes, marés e cordas. Miguel tinha quase a mesma idade de Bento e nunca havia jogado vídeo game. Foi assim que tudo começou. Bento mostrou novidades para o novo amigo, que estava deslumbrado com o que o dinheiro podia pagar. Miguel era o quinto filho, o caçula, e aprendeu a ficar feliz com pouco ou quase nada. A mãe deles se esforçava para cuidar da casa com o pouco que ganhava o pai de Miguel, mas o marido não aceitava que ela voltasse ao oficio de costureira. A vida em Águas Rasas não se movimentava como as marés. Os irmãos de Miguel seriam pescadores, assim como o pai é os avós foram antes deles. Talvez Bento pudesse ter encarado esse destino. Pelo menos ele estaria perto do amigo. Mas seu pai resolveu que ele não seria pescador, mas Juiz de Direito. Porque sim.
Miguel e Bento estudaram juntos, na escola estadual da cidade. Uma escola simples, pouco desenvolvida. Estudaram na mesma sala. Faziam juntos as tarefas. Brincavam juntos. Voltavam juntos para casa e aprendiam os segredos da pesca juntos. Às vezes jogavam vídeo game, só para sair um pouco daquela realidade quando o pai de Miguel o deixava dormir no casarão do patrão.
No último ano da escola, Miguel e Bento tiveram que se separar. Bento havia feito o vestibular e não havia universidades por perto. Foram separados por mais de trezentos quilômetros de pura angústia. Teria sido muito mais fácil se eles não tivessem selado o amor que sentiam um pelo outro nos últimos dias antes da partida. Todos perceberam que os dois andavam estranhos, mas ligaram ao fato de que eram muito amigos e precisavam se separar. Dois caminhos, distintos. Bento prometeu a volta. Miguel teria que esperar.
O cenário de Águas Rasas era incrível. Nas férias recebiam muitos turistas devido as duas dunas que criavam uma paisagem paradoxal. O deserto e o mar se encontravam, como um amor impossível. Pela janela do carro pai, Bento se recusava a perguntar o paradeiro de Miguel para não levantar suspeitas. Não era uma surpresa que nas férias ele iria voltar para a casa do pai.
- Estamos reformando a casa. Sua avó está morando com a gente agora. Ela está doente e não pode mais ficar sozinha.
O pai quebrou o silêncio, mas a noticia foi recebida sem reações. Não importava.
A madrasta de Miguel evitava falar com ele. Não se metia entre o filho e o pai e tudo o que queria era uma boa vida e mostrar para as amigas de infância o quanto ela cresceu ao fisgar um bom partido. Mesmo que já tivesse esposa e filho esperando por ele em casa. Miguel não se dirigia a ela, igualmente. O luto pela mãe e a mudança repentina contribuíram imensamente para isso.
Tudo estava exatamente do jeito que ele deixou quando foi para a capital. Exceto por um detalhe: seu quarto estava ocupado. A avó paterna repousava quase morta quando ele abriu a porta do quarto.
- Você vai ficar na casa do Miguel essas férias. A gente está terminando seu quarto ainda...
Bento realmente se esforçou entre a raiva súbita que sentiu ao ver que não tinha mais lugar para ele na casa ele e a explosão de felicidade e ânsia que fez suas entranhas dançarem uma conga.
***
- Presta atenção na rede, menino!
O pai de Miguel puxava o monte de peixes sequestrados com mais esforço do que deveria.
Miguel não estava de corpo e alma naquele barco. O coração estava acelerado, mas o corpo entorpecido. O sol queimava suas costas e seu pensamento estava distante com a possibilidade de receber Bento em sua casa. Ele iria dormir no sofá só para que Bento pudesse ficar mais confortável. Era o mínimo que ele podia fazer. Receber bem as visitas.
Quando Miguel chegou em casa, Bento já estava lá conversando com a mãe dele e os irmãos, esperando o café ferver. O cheiro de peixe frito e macaxeira preenchia a casa pequena, mas confortável. Foi uma recepção natural para todos. Para Miguel foi uma tortura. Ele precisava fingir que aquele homem sorridente e bem letrado não era um dos seus maiores motivos de insônia. Ele evitou olhares, sorriu menos das piadas. Estava ansioso para um momento em que eles pudessem estar a sós. Não seria ali, naquela casa sem forro, que todo barulho passeava pela casa como se fosse um cômodo só. Nem mesmo sussurros seriam tolerados.
Foram seis longos meses desde que Bento se foi. Muito havia mudado. Miguel aprendeu a beber e a fumar de vez em quando. Saia com os irmãos mais velhos para festas com paredões e soube que se esquivar das investidas das mulheres atrairia péssimas impressões para ele. Afinal, Miguel tinha se tornado um belo homem. O mais bonito dos irmãos. Alto, definido, a pele queimada do sol, quase nenhum pelo no corpo e um sorriso muito branco. Foi assim que ele chamou atenção demais da madrasta de Bento, que o pegou desprevenido enquanto ajudava na reforma do casarão. Foi a primeira vez que ele não conseguiu evitar. O pai não podia perder o emprego. E em troca a mulher conseguiu convencer ao pai de Bento a comprar um celular para Miguel.
- Agora ele vai poder falar com o amigo lá na capital, amor.
A mulher tinha o marido na palma da mão. Miguel já tinha ouvido falar sobre as peripécias dela quando passava um tempo perto dos pescadores com quatro ou mais doses de pinga queimando na garganta. A mulher do patrão era jovem demais para se aposentar.
Quando Miguel ligou para Bento pela primeira vez foi como se o mundo inteiro tivesse virado de cabeça para baixo. A voz dele, com um timbre grave, o hiato que deixava entre as palavras, como se estivesse escolhendo bem o que iria dizer. Miguel sentia falta de olhar nos olhos dele, sentir o hálito, o toque grosso e principalmente dos lábios que ele conseguiu provar na virada de ano novo, dentro do quarto dele no casarão, com todos da família brindando na beira da praia sem imaginar os pecados que estavam acontecendo.
A vida realmente não foi mais a mesma. Já não era antes, aliás. Miguel nunca entendeu porque não sentia atração por meninas. Nem as mais bonitas da escola. Se passava por tímido para não levantar suspeitas. Não olhava para os amigos de forma direta e preferia deixar sua mente mais próximas dos barcos e peixes. Ele sabia que homens afeminados não viviam bem. Eram menosprezados, abandonados e humilhados. Uma vez ele escutou os pescadores falando sobre um afeminado que morreu de tanto apanhar. Conhecer Bento mudou tudo. Ele o aceitou e o medo se apequenou. Era muito difícil compreender que era mais do que amizade. Miguel via as meninas dizerem o quanto Bento era inteligente e rico. Quando eram menores, Miguel era muito magro, retraído e pouco se cuidava. Aos poucos ele foi tomando corpo e se tornando um homem bonito, mas não inteligente e muito menos rico. Bento jamais havia mostrado interesse nele até aquele final de ano. A iminência do afastamento fez com que eles aproveitassem mais os dias, fizessem coisas que jamais haviam feito.
Em uma noite antes do natal, Bento teve a ideia de visitar as dunas mais longínquas. Ele sempre tinha as melhores ideias. Dirigiram o quadriciclo do pai de Bento até o ponto mais alto e mais distante das luzes da cidade. Estava muito frio e eles observaram a natureza em silêncio, como se fizessem uma prece para agradecer aquela imensidão de areia e água.  Se perderam no tempo, sentados na areia, lado a lado. O calor que trocavam naquele momento era intenso. O estopim de tudo que culminaria no beijo ardente e inesquecível ao som dos fogos de artifício. Miguel já sabia o que ele queria naquela noite nas dunas. Ele queria tirar a roupa de Bento bem li mesmo, na areia branca e gelada, beijar cada centímetro de seu corpo e declarar que perderam tempo demais entre lutas no vídeo game e redes de pescar. Ele desejava provocar o corpo masculino, crescido e intocado de Bento. Chegar aonde ninguém mais chegou.
Naquela mesma noite Miguel mal conseguiu dormir. Teve sonhos e gozou silenciosamente muitas vezes pensando no que poderia ter acontecido. Teve medo de alguém conseguir ler seus pensamentos, de dormir e falar o nome de Bento enquanto sonhava e todos em casa descobrirem seu segredo.
Com Bento de volta em sua vida, tão próximo, ele teve medo, pela primeira vez, de viver. Medo do futuro e do que poderia acontecer se eles fossem descobertos. Os planos mirabolantes de Bento precisavam funcionar. Em breve eles estariam juntos para sempre. 
***
            A mãe de Miguel era uma mulher nascida e criada em Águas Rasas. O homem que a tirou de casa, prometendo uma vida de amores e farturas, tinha chegado na cidade com um barco pesqueiro. As moças da cidade fizeram o maior alvoroço por causa do forasteiro. Jovem, bonito e tinha o próprio barco. Dormia nele também, já que não tinha motivos para se estabelecer em Águas Rasas. Por um tempo ele vendeu os peixes que pescava, eram bons, frescos. Mas não conseguia mais do que o necessário para continuar de pé. Se apaixonar pela menina na janela fez o pescador vender seu barco e prometer o que jamais pôde cumprir.
            Cíça se casou com Antônio alguns meses depois de sua chegada na cidade. Vendida, a mulher viu sua vida mudar completamente no primeiro mês de casada. Empobrecida e grávida de seu primeiro filho, que iria se chamar Antônio como o pai e o avô, ela se pôs a costurar e arrumar um jeito de conseguir dinheiro para o enxoval. O marido não queria que ela trabalhasse. Ele prometeu que ela não iria precisar trabalhar enquanto homem da casa estivesse vivo. Inclinada a ajudar o marido, apanhou aos nove meses quando o marido descobriu seu pé de meia conseguido pelo esforço dos vestidos que costurou. Nasceu da pancada, assim veio ao mundo Antônio Neto.
Ciça se confessou pela desobediência. Aprendera desde cedo que jamais deveria desconfiar ou enfrentar o marido. Ele era tudo o que ela precisava. Escondeu a agulha e a linha e passou fome em silêncio. Quando o marido começou a beber, algumas vezes ele descontava nela a frustração de ter vendido seu amado barco para desposá-la. Com o dinheiro do barco, a família dela deixou a cidade, em busca de melhores oportunidades. Ciça já estava muito bem resolvida com isso, pois não foi diferente com suas irmãs.
Nos anos que se sucederam, o casal teve mais três filhos. O intervalo entre cada um foi de um ano. Antônio Neto, João, Pedro e Carlos. Os amores do pai. A vida estava começando a ficar bem mais leve. O marido arranjou emprego numa pescaria. Tinha vendido o barco, mas as habilidades de pesca estavam com ele ainda. Em um tempo de vacas mais gordas, dois anos após Carlos, o quinto nasceu. Ciça tinha desejado com muita força uma menina para ajudar nos afazeres de casa, mas Miguel nasceu contrariando esse desejo. Ela realmente teria de ficar sozinha. Não aguentava mais ser receptáculo da vida. Desistiu. Também não sentia mais desejo pelo Antônio pai, que algumas vezes era visto pelos cabarés, com filho mais velho correndo por perto.
Miguel ficava mais tempo em casa, com a mãe. Aos poucos ela foi entendendo que ele não era como os outros, que buscaram o caminho da rua com muita naturalidade. Ele quase não falava e gostava mais de passar o tempo assistindo a velha televisão que ficava na sala de casa. Quando Antônio Neto completou doze anos, o pai o levou para ver as quengas. Ciça foi perdendo pouco a pouco o respeito dos filhos, menos o de Miguel. Foram quatro longos anos tentando encaminhar melhor os filhos e apanhando de vez em quando para aprender a ficar calada e deixar o pai escolher o melhor para suas crias. Miguel, por outro lado, enxergava a mãe. Ele era a sua maior conquista e segredo.
Quando todos os filhos mais velhos saiam com o pai na noite, Ciça acendia uma vela e ensinava Miguel a costurar belas toalhas e roupas. Ele entregava as encomendas sem dizer a ninguém e recebia dinheiro para jogar no fliperama e comprar flau de vez em quando para refrescar no calor da cidade. Ele fazia tudo isso escondido para que os irmãos não questionassem e o segredo da mãe fosse descoberto. Quando era pego ele dizia que ganhou o dinheiro por favor prestado às pessoas. Como se tratava de algo normal, ninguém realmente fazia questão de se aprofundar.
Com o passar dos anos, o patrão do marido faleceu e o filho dele assumiu a frota dos barcos e a venda na peixaria. O novo patrão do marido era muito parecido com ele. Os boatos que corria pelas calçadas era que ele tinha deixado mulher e um filho na capital e vindo morar em Águas Rasas com uma nova mulher. Vinte anos mais nova.
            Antônio proibiu Ciça de comentar algo sobre isso, pois poderia prejudicar o novo patrão. O marido tinha conseguido alcançar maior confiança com o novo patrão e fofocas das mulheres não deveriam atrapalhar essa relação. Ciça emudeceu. Não queria mesmo se envolver desde que sua mesa tivesse comida e tivesse pano para cobrir suas vergonhas. Era o necessário para viver. Além de sua agulha afiada, seu carretel de linha e Miguel.
            À medida que cresciam, os filhos mais velhos começaram a tomar um rumo diferente. Brigavam com o pai, sumiam por dias e voltavam revoltados com a vida. Passaram a beber, trazer muitas meninas para serem apresentadas para a mãe e quase nenhuma durava mais de um mês. Assim se perderam os quatro filhos, menos Miguel. Que observava de longe, mesmo estando tão junto. Ele ouvia calado as discussões. As insistências que dos filhos de que homem de verdade precisa estar agarrado na mulher que lhe deva abertura para isso. Ciça já não discutia, calejada pela vida. Seus olhos estavam em Miguel, sua última esperança. Esperança de ver um futuro neto bem criado e saudável correndo pela sua casa.
            A amizade de Miguel com Bento, pegou a mãe de surpresa. Ciça percebeu que o filho estava mais centrado nos estudos e evitando muitos problemas enquanto estava com o filho do patrão de Antônio. Ciça o escutou uma ou duas vezes resmungando baixo pelos cantos que os meninos andavam “juntos demais”, mas como era o filho do patrão, ele preferia não falar mais alto. Ciça nunca tinha percebido nada demais naquela amizade. Era bem melhor do que as amizades que os filhos mais velhos costumavam ter. Bebidas, fumo e quengas o tempo inteiro enquanto não faziam bico evitando estudar.
- Estude meu filho, é só o que lhe peço. Você terá tudo o que você quiser.
Ciça não cansava de aconselhar Miguel quando o via tentando aprender palavras novas ou sonhando em ter um vídeo game igual ao do Bento.
Anos mais tarde, Antônio sentiu o tempo e percebeu que precisava de ajuda na pescaria, mas não sobrou filho que o respeitasse para ajudá-lo. Miguel era sua última alternativa e Ciça ficou um pouco preocupada. Miguel estava acabando a escola, finalmente e ele poderia fazer até mesmo um curso para ser doutor. Mas o destino não quis. Antônio disse que ele seria doutor em outra vida, pois naquela ele era pescador e que se fosse para ficar com cheiro de peixe para o resto da vida, ele iria ficar. Miguel ficou muito triste quando amigo foi embora para ser advogado ou juiz. Ciça tentou consolar o filho dizendo que nada dura para sempre, mas, com o futuro interrompido pelo pai, a mãe viu o filho se juntar ao ódio acumulado dos irmãos. Miguel começou a beber, a fumar e ia para as festas onde corria solta os mais variados tipos de safadeza. Ciça adoeceu em silêncio. Antônio nem mais reclamava. A vela que Ciça usava para costurar já não mais brilhava e a casa começou a ficar mais tempo vazia, a amargura sustentando as paredes dos sonhos despedaçados.
Quando o mês de agosto chegou, Miguel apareceu, silencioso. Arrumou o quarto e disse que Bento ficaria ali nas férias. Ciça observou tudo enquanto ariava as panelas de casa e ela podia jurar que viu um sorriso escondido no rosto de seu filho antes dele sair para pescar com o pai.  
***
Célia estava voltando para casa quando reconheceu o rosto de Miguel entre os pescadores mal acabados que trabalhavam para seu marido. De repente ela sentiu falta de ter aquele jovem corpo entre as pernas, mostrando virilidade e vigor que seu marido velho e bruto não conseguia manter. O mais delicado que o marido conseguia ser era quando segurava um copo de cachaça, mas Miguel sabia exatamente como deslizar as mãos cheias de calo pelo corpo de uma mulher. Ela sentiu um desejo tão intenso que parou o carro e ficou observando o rapaz enquanto fingia retocar a maquiagem. Ela precisava encontrar uma forma de tê-lo naquela mesma noite. Por sorte, tinha conseguido convencer ao marido de comprar um celular para o rapaz sob o pretexto de precisar se comunicar com ele para eventuais trabalhos ou para falar com Bento quando ele estava na capital. Como Bento estava na cidade, seria arriscado ligar para Miguel sem levantar suspeita.
Por algum tempo foi fácil laçar o rapaz, porque Célia o viu trabalhando na construção do casarão para conseguir uns trocados. Quando ninguém mais estava lá, Célia se aproximou sem esconder suas intenções. Ela nunca viu um corpo inteiro pulsando como naquele dia. Ele estava rígido da cabeça aos pés, mas de alguma forma seu corpo era macio. Ela segurou com veemência o volume na bermuda do rapaz e seu desejo explodiu. O suor descia pelas costas e não estava calor. O corpo tremia, mas não estava frio. Ela entendeu que ele nunca deveria ter estado com uma mulher de verdade e ela era uma mulher de verdade.
Ser uma mulher de verdade naquela cidade não era fácil. Ela não tinha nascido para ser mulher de um homem só, mas também não tinha nascido para ser quenga de esquina. Ela tinha conseguido um homem chucro, deslumbrado com as possibilidades da herança e com uma mulher que já não tinha mais o que dar. Ela sabia que ele tinha um filho também. Todos têm. Ela nunca se importou. Foi fácil para Célia cativar Naelson e suas calças surradas fedendo a peixe. Ele achou que poderia recomeçar a vida. Uma casa nova, um emprego novo e uma mulher nova. Bem mais nova, diga-se de passagem. Não demorou muito e ela mostrou que ele ainda estava vivo por trás daquela carcaça imunda. Ele era igualzinho ao pai dela. Burro, feio e fedorento, mas fácil de domar. E, principalmente, tinha dinheiro. Miguel foi muito bem pago para ficar calado. Célia havia avisado que se o marido soubesse o pai dele certamente iria perder tudo. O rapaz entendeu.
Quando a mãe do Naelson se mudou para a casa, Célia achou que não seria problema, mas a velha era observadora demais para quem está com o pé na cova. Ela não poderia criar problemas em casa. Graças a ela, que ocupou o quarto antigo de Bento, este teria que passar as férias na casa do Miguel. Seria muito arriscado para Célia conseguir se aproximar sem desconfianças. Haveria de ter outro jeito.
Ao terminar a maquiagem, Célia baixou o vidro do carro. Aproveitou e chamou o pai de Miguel, que estava carregando um tonel lotado de peixes. Cansado, o velho mandou o filho. O mais novo primeiro.
- Me encontre hoje de noite na peixaria e avise ao seu pai que meu marido pediu para ele deixar o Donzela pronto para sair amanhã, porque o Rainha precisa de conserto. Hoje eu vou fechar a peixaria. Vou esperar você lá.
Miguel assentiu sem falar uma palavra. Nem olhou para o rosto dela. Ficou olhando para o pai enquanto ouvia atentamente. Bom rapaz.
Célia voltou para casa na vontade de encontrar com o marido e lhe cansar o corpo. Ela precisava de pretextos para ir na peixaria. Fechar o caixa, comprar algo para a casa ou qualquer coisa que entediasse o marido ao ponto de ele não querer ir junto.
- Vá sozinha que hoje eu vou assistir o jogo. Vai vim o pessoal pra cá com as cervejas.
Célia, como uma boa mulher, iria obedecer ao marido. Ela era uma mulher de verdade.
Durante a tarde, ela aproveitou para tomar um banho na piscina e fazer os pedreiros no andar de cima olharem de soslaio. O marido descansava no sofá, o controle remoto pendurado na mão e o prato de comida do almoço vazio juntando mosca no centro da sala. A visão do desleixe. Assim era a vida de Célia. Uma corda bamba entre o sucesso e fracasso que só ela conseguia enxergar. Tramas que levam a lugar algum e fazer parte do imaginário popular. A vida girava em torno do possuir o impossível, de vangloriar o que jamais conseguiu e gozar de satisfações unilaterais. Cada um possui a vida que acha que merece e Célia, depois de ter sido abusada tantas vezes pelo pai, abandonada pela mãe que se tornou prostituta, acreditou inexoravelmente que aquela era a melhor volta por cima que ela poderia dar. Porque ela sim, era uma mulher de verdade.
***
    Antônio amarrou o Rainha e o Donzela na beira da praia e esperou. Eram barcos menores, mas muito eficientes. Um antigo pescador tinha conseguido a proeza de bater o casco do Rainha na barreira de corais e o barco nunca mais foi o mesmo.
O velho sentou na madeira e olhou para o marasmo da orla de Águas Rasas. Lembrou-se de quando chegou ali em seu próprio braço, cheio de vida e de sonhos.  A tristeza lhe invadia sempre que visitava o passado. Não lhe sobrava nada além do arrependimento, uma mulher frustrada, cinco filhos perdidos e o cheiro de peixe que nunca saia do corpo todo. Cinco não, quatro. Miguel ainda tinha chance. Meio avoado, estranho, mas sabia quando ficar calado e fazer as coisas. De vez em quando arranjava um trocado fazendo favores, andava com poucos amigos e nunca tinha trazido mulher pra dentro de casa. O que alegrava o rapaz era quando chegava Bento. O filho de Naelson. Um menino cheio das ideias, esperto, criado na frescura da cidade e não sabia dar um nó que não desatasse com o tempo. Foi ele que fez Miguel trazer livro para dentro de casa. Ninguém lia. Para pescar não precisa saber ler. Se quiser ser doutor tem que nascer filho de doutor. Filho de Antônio é para servir, não pra ser servido. Assim foi antes e assim será depois.
   A noite e maré baixa chegaram. Os barcos estavam onde deveriam estar e ele precisava voltar pra casa. Miguel tinha saído todo desconfiado lá para a bandas do mercado. Ele já vinha notando que algo não estava certo no rapaz e realmente decidiu sair à procura quando chegou em casa e Ciça disse que ele não tinha voltado pra casa.
Desde de criança o menino sempre foi estranho. Cheio de não me toque, com uma cara de quem sabia mais do que todo mundo. Nariz em pé. Antônio achava que era porque ele passava mais tempo com a mãe do que com os homens. Ficou uma moça. Os irmãos desciam o cacete nele, que não revidava, só chorava e corria para a barra da saia da mãe. Ciça acostumou mal o menino. Antônio nunca viu o filho caçula com mulher nenhuma. Até ouviu dizer por aí que ele nem homem era. O pai ficava furioso, esperando um deslize ou uma confirmação. Mas nada. Miguel era inocente até que se provasse o contrário. Quando os irmãos saiam assim de mansinho, era porque estavam com as raparigas. Miguel, então, estaria saindo escondido por causa de quê?
Antônio tomou um banho pensando se deveria ou não ir atrás do filho. Decidiu que sim. Ele precisava alumiar essa história cheia de segredos. Nem jantou e não avisou à Ciça, desceu a rua tropeçando nos paralelepípedos sem olhar para trás perguntando a um e a outro se Miguel tinha passado por ali. Os bares estavam cheios de gente vendo jogo de futebol e em nenhum deles Miguel estava. Lembrou que viu ele indo para o mercado. O mercado fecha no anoitecer, mas os mercadores passavam um tempo a mais para resolver pendência de estoque, receber mercadoria ou fechar o caixa do dia.
Dito e feito. A peixaria estava fechada, mas tinha luz acesa lá dentro.
Antônio se esgueirou para saber se conseguia ouvir alguém, já que as portas estavam fechadas. A noite fria e o cheiro de peixe preenchiam o local. Antônio pensou se a porta dos fundos não estaria aberta. Fez o arrodeio e tentou entrar. Os becos escuros do mercado e a pouca passagem de pessoas pelo local fez Antônio baixar a guarda. O golpe veio rápido e no momento exato de um gol. Os fogos estouraram no céu de Águas Rasas e Antônio caiu no chão, desfalecendo no cheiro de peixe.
***
Bento aproveitou o carro que Célia usou para chegar no mercado para colocar os corpos, enquanto Miguel misturava os fatos ensanguentados de peixe ao sangue humano no chão. Nenhum dos dois trocou uma palavra sequer. Sabiam exatamente o que fazer. Os golpes surdos deixaram filetes de sangue, que foram limpos antes de serem colocados os sacos plásticos pretos nas cabeças.
Bento dirigiu até os barcos e Miguel ajudou a colocar os corpos dentro deles. Amarrados com cordas e uma ancora em cada, Miguel entrou no mar e navegou em direção as dunas seguindo o plano. Agora nada mais estaria em seus caminhos. Aquelas pessoas nojentas encontrariam seus verdadeiros túmulos no fundo do oceano. Há muito tempo Miguel estava cansado de viver as chantagens, a subserviência e a mácula de seu corpo e Bento o amava o suficiente para compreender tudo. Ele também estava cansado de reviver seus traumas, adoecer por dentro enquanto os verdadeiros vilões regozijavam a herança de vidas passadas mal vividas. Miguel queria sua liberdade como homem. A liberdade de sua mãe e a liberdade para seguir seu coração. O mundo jamais iria os compreender. Águas Rasas não era mais uma cidade pacata que fedia a peixe e prendia as pessoas em existências vazias. Agora era palco de uma metamorfose incomparável.     
Bento simplesmente pegou o carro e voltou ao casarão onde seu pai bebia e assistia ao jogo com os amigos. Ele passou pela sala sem dar uma palavra e quase sem ser notado. Um sorriso no rosto avisava a todos que não se incomodassem com ele. Ele passou pela porta do seu antigo quarto e observou o corpo inerte da sua avó. Ela estava com o pescoço inclinado para trás, a boca escancarada, os olhos fechados. Ele se aproximou e percebeu que a vida dela havia se esvaído há algum tempo, poupada, finalmente, de ter vivido uma vida sem sentido e repleta de frutos podres. E o maior deles estava na sala. Comemorando o fim de tudo sem saber. Bento fechou a porta do quarto com uma última olhadela no cadáver e seguiu para o quarto do pai, onde estava a chave de sua lancha favorita ao lado de uma garrafa de Whisky irlandês. Eles não iriam embora em barcos pesqueiros e ninguém iria ser poupado.
Miguel chegou ao ponto mais longe da cidade e mais próximo das dunas. O barco estava flutuando com mansidão. Não havia luz para guiá-lo, para não chamar atenção dos pescadores da noite. Ele amarrou uma ancora nos pés do corpo da mulher e atirou no fundo do mar. O corpo desceu rapidamente. O próximo seria o seu querido pai. Velho escroto, retrógrado. Ele amarrou a ancora nos pés dele quando a voz abafada de Antônio rompeu o silêncio.
- Miguel?!
O filho sentiu seu coração disparar. Não poderia mais ouvir aquela foz rouca e infeliz mais um segundo sequer. Ele levantou a ancora enferrujada e desceu com força na cabeça coberta pelo saco preto. O velho se estremeceu. Miguel levantou e desceu a âncora mais três vezes para ter certeza. Teve medo do barco quebrar. Levantou o corpo com cuidado e deixou o mar fazer o seu trabalho. Estava na hora de voltar. Seguiu para a escuridão em direção a uma luz que piscava em uma ordem interessante
No início das dunas, Bento esperava Miguel montado no quadriciclo, ele fazia as luzes piscarem em um ritmo previamente estabelecido por eles. A qualquer momento ele iria aparecer.
Quando Miguel chegou, Bento o abraçou fortemente. O vento frio passou por eles e seguiu em direção as dunas. Montaram no quadriciclo e seguiram para o cais, os braços de Bento agarrados no torso de Miguel. A lancha e as malas arrumadas. Eles iriam embora, finalmente.  
***
Alguns meses depois, Ciça se aprontava em sua casa para visitar Miguel. Pedro e Antônio Neto estavam assistindo televisão. A repercussão ainda era grande. Em uma cidade pequena como aquela, ninguém jamais deixaria a história de lado por muitas gerações.
Ela pegou uma van e seguiu para a capital. Desde que a polícia começou a investigação do caso, Miguel e Bento se mantiveram juntos até o fim. Ciça foi interrogada junto com os filhos sobre o sumiço do marido. A versão sempre era a mesma. Ela não sabia para onde o marido tinha ido, os filhos mais velhos estavam fora e o mais novo estava em casa com o amigo. Assim foi e assim será. Como a polícia não conseguiu explicar as pontas soltas, a cidade o fez. Boatos corriam de que Célia Regina tinha um caso com Antônio, fiel empregado de Naelson, há muito tempo. Seu filho Miguel confirmou a versão e as pessoas no mercado viram quando Célia chamou Antônio no mercado na última vez que foram vistos. Bento contou à policia que a morte de sua avó e a traição da mulher foi demais para o seu pai, que foi encontrado morto no banheiro de seu quarto. Misturou veneno com whisky. O chifre que a cidade inteira imaginou que ele um dia iria descobrir. O filho Bento herdou a peixaria e a vendeu, junto com todos os bens do pai. Célia e Antônio nunca foram encontrados. Nem a lancha que eles usaram para escapar juntos em seu caso de amor proibido.
Ciça repassava a história na cabeça todos os dias para não esquecer. Entre boatos e verdades, o que realmente importava é que ela estava livre e seu filho vivia muito bem estudando com o amigo na capital. Era um sonho se realizando. Seus filhos mais velhos seguiram suas vidas sem se importar com o sumiço do pai. Eles estavam esperando por isso há muito tempo. Era bem normal naquela cidade os homens abandonarem suas famílias por uma nova vida com mulheres bem mais novas. Mulheres não, quengas.

Ciça sorriu, pensando nos segredos de sua vida. Os poucos dentes que lhe sobravam na boca eram suficientes para estampar a beleza da felicidade enquanto ela bordava o enxoval do neto. O que realmente importava para ela restava com ela mesma.