CRÔNICA 1 - NOS BRAÇOS DE MORFEU
Eu era
ninguém. Um desajustado social que vivia vagando pelos becos escuros de Neo
York. Eu não tinha dinheiro, família, nada, naquele lugar. Eu cresci como um
marginal entre os Orcs nos esgotos, alimentando minhas esperanças com os restos
que a elite deixava cair dos arranha-céus quilométricos que se erguiam em cada
esquina enevoada. A raiva da desigualdade social, das injustiças causadas pelo
sistema neocapitalista, que escravizava até a alma dos condenados da classe E,
era o que me incitava a sobreviver em meio a toda aquela sujeira enquanto
sonhava com um mundo melhor.
Era costume
frequentar a taverna de um minotauro cyborgue que comandava a zona sudeste de
Neo York, no bairro A06. Era um dos lugares mais barra pesada daquela zona, mas
eu já era conhecido por lá e tinha acesso livre para fazer meus corres. Eu só
deveria ter cuidado com alguns elementos que eu estava devendo...
Naquela noite a
fome tinha apertado e o melhor lugar com uma comida boa, barata e com menos
gosto de graxa e óleo possível era a taverna Cabana Metallica. Era um prédio vagabundo
revestido com placas enferrujadas de diversos tipos de metal com uma porta
automática de aço escovado que destoa do restante da construção e foi
conseguida – certamente – no mercado negro dos elfos renegados.
Gastei os
últimos números no meu braço para comprar alguma besteira para passar a fome.
Ou enganar a barriga. Eu tinha levado uns D-crypter XPs para vender a uns
batedores de carteira na esquina da Lexington com a Whiteout. Esses
aparelhozinhos cheios de fios coloridos podiam invadir e roubar qualquer coisa,
inclusive os números de câmbio da mente dos drogados que iam ao Dreamx para
viver nas ilusões de um mundo perfeito construído por códigos binários. Eu
mesmo já fiz isso várias vezes quando criei o D-crypter XP e comecei a vender
nas sombras do submundo. Só que eles foram equipados com um software auto
destrutivo que sobrecarregava e fritava o chip de memória, inutilizando o
aparelho. Apenas se podia usar uma vez e eu vendia muito. Eu era esperto demais.
Quando eu saí
da Cabana Metallica não percebi a emboscada armada por um dos meus ex-clientes,
um dos quais eu enganei muito, diga-se de passagem. Eles aguardaram
pacientemente que terminasse minha refeição e tomasse uns drinks fortes de
Metilona. Quando eles me agarraram ainda me dosaram com serummorfin – que fez
um efeito interessante quando misturou com o álcool no sangue. Fiquei um tempo
desacordado sonhando coisas boas sem imaginar o que viria.
Sabe, eu
sobrevivi muito tempo naquele mundo hostil, o suficiente para entender que um malandro
não foi feito para durar tanto. Eles me drogaram com Chimera até conseguir o
segredo do software no D-crypter XP. Quando conseguiram roubar todos os meus
segredos técnicos, passando por todos as barreiras protegidas do meu cérebro,
eles me overdosaram. Eu morri feliz. A Chimera é uma droga forte, usada na
Dreamx para criar ilusão monitorada por um supercomputador, mas em alta dosagem
pode sobrecarregar sua mente e fazer você entrar em atividade neural de sono
permanente. E aliada à Metilona e ao serummorfin...
O que
aconteceu com meu invento eu não sei, mas os elfos negros que o roubaram vão
fazer um ótimo proveito dele.
E o que restou
de mim?
Eu ainda sou o
mesmo.
Apenas um
menino que sonha com um mundo melhor.
Agora para
sempre.
CRÔNICA 2 - EFEITO DOMINÓ
A taça de
champanhe esvaziava lentamente enquanto eu navegava pela webnet procurando
informações que noticiaram o lançamento da minha nova coleção no FashiOne
Weekend. Os meus designs foram especialmente desenhados para serem "Um
deleite visual!", de acordo com o Neo York Wall; "Fruto de um gênio
indomável das passarelas", na página principal do N1Y; e "Verdadeira
obra de arte da alta costura" no ChroNews. Uma grande vitória que eu
passaria na cara de todos que não acreditaram na minha ressurreição diante da
última e fracassada coleção, quando até a Forgery, uma moda para anões e
halflings, e a Misfits, que eram baratas e populares e com menos padrão de
qualidade, conseguiram compradores importantes e eu não.
Quando assumi
o controle da empresa, eu era uma promessa daquele mundo ingrato. Um sonhador
como qualquer um outro nessa cidade, preocupado em manter meu status para não
acabar nos esgotos da vida dividindo meus fracassos com os taverneiros na zona
sul, provavelmente tendo me dobrar a trabalhar para uma empresa baixa qualquer
como a Misfits.
Enquanto enchia
a taça novamente, eu estava lendo alguns comentários dos usuários da SOMA, a
maior rede social do mundo, e fiquei surpreso pela quantidade de pessoas que
assinaram a página Hidden Tops - um mural repleto de notícias de procedência
duvidosa sobre a elite. A princípio não negarei que passei a assinar a página
porque havia uns posts sobre a família Rock'n'feather, fofocando sobre as excentricidades
da socialite Ravenna, filha de um megaempresário, que abalava os bairros nobres
flutuantes com suas festas e glamour. Outros posts comentavam ainda mais sobre
outras poderosas famílias, como os Blackwoods e os Van der Leaves, dois
distintos clãs élficos.
Um dos posts
parecia mais uma fofoca enviada por uma fonte anônima, como estava escrito, e
comentava sobre o possível contrabando e abuso de substâncias ilícitas pelo
filho pródigo dos elfos negros da casa Blackwood. Havia uma foto do jovem
comprando as substâncias e outra com ele já drogado no FashiOne da noite
passada.
Os Blackwoods
provavelmente estariam furiosos se soubessem disso, mas como os Elfos - e especialmente
eles! - não costumam usar a SOMA, eu usei minha prestigiada conta na rede
social élfica exclusiva, a Mellon. Entrei no perfil do Blackwood e enviei o
link por inbox. Ele precisava ver o que sua prole andava fazendo pelas baladas
da vida.
Passados uns
minutos eu recebi um e-mail de um usuário chamado 90551P 91RL. Eu simplesmente
não acreditei no que vi. Esse usuário era o dono da página Hidden Tops e me
enviou a próxima notícia que iria bombar em sua página na SOMA: A nova coleção
da VauxHaus é uma FRAUDE!
Se não fossem
as provas concretas do meu crime anexadas naquele e-mail, eu não teria temido
tanto. Havia fotos, vídeos e áudios das minhas transações com crackers que
roubaram a coleção da concorrente Sage & Istari, antes dela ser lançada.
“Quanto você quer para não
divulgar esse material?” -, digitei em resposta, suando frio. O pop-up de um
novo e-mail chegou quase que instantaneamente: “Nada que você possa me dar.
Hasta la vista, baby”.
E de repente a
página principal do Hidden Tops publicou meu nome e toda aquela sujeira. Eu
estava completamente ferrado. Eu sentia os números no meu braço querendo
apagar. Recebi ligações dos meus advogados ao mesmo tempo em que a imprensa
noticiava a bomba e os representantes da Sage & Istari iniciaram uma videoconferência
para o mundo inteiro. Eu peguei o bracelete BankUp e removi toda a quantia no
meu braço. Era muito número para perder num processo. Peguei um elevador e
desci abaixo da névoa que dividia as classes D e E. Ninguém me encontraria
enquanto estivesse lá embaixo, mais próximo dos anões e orcs. Tomei um
transporte ativando uma magia do iSpell para me camuflar e quando cheguei ao
apartamento na zona leste, o iSpell notificou uma nova mensagem.
“Não vou divulgar isso na SOMA, é
só pra você saber que eu sei”
90551P 91RL
Anexada ao
e-mail havia uma foto do meu apartamento. Um imóvel no bairro anão na avenida DurinWall
que eu achava que ninguém sabia da existência. Terrorista filho de um troll! Eu
enviei um e-mail de volta, meu rosto começava a esquentar de raiva. Ninguém me
trataria dessa forma e sairia impune. Eu enviei um feitiço rastreador para
descobrir a fonte do e-mail, mas quando o sinal subia ao céu era interrompido
por um firewall mais poderoso. Quem quer que fosse o tal usuário 90551P 91RL,
era um membro da elite. Seria impossível saber a identidade. Uma nova mensagem
abriu no canto.
“Ulliel Blackwood sabe que você
mandou o link para o Blackwood pai. Se eu fosse você me preocuparia muito mais
com sua vida que em me rastrear”
90551P 91RL.
Quando o
último e-mail chegou, eu notei que minha inbox na Mellon tinha uma mensagem do
Ulliel. Não havia nada escrito além de uma foto de um prédio escuro. Invadiram
o apartamento tão rápido que eu nem senti. Contudo, além de estilista e
megaempresário, eu era um techmago. Se eu não saísse vivo dalí, ninguém mais sairia.
Decididamente eu levaria todos comigo. Quando Ulliel Blackwood apontou sua arma
para mim, meu iSpell já tinha carregado a mais potente magia que havia aprendido,
a supernova.
Mil trezentos
e cinquenta e sete pessoas foram eliminadas com sucesso.
A tela inquebrável
do iSpell revelava o fim do bairro inteiro.
A manchete no
Hidden Tops brilhava no canto:
ATENTADO TERRORISTA
EM BAIRRO ANÃO.
Foi assim que
a guerra começou.
CRÔNICA 3 - PRODÍGIO
Fazia uns
meses que eu vinha perseguindo e investigando o Dr. Sage a serviço da NPD - Neo
Police Dept. O sujeito era acusado de terrorismo por vender novas versões,
atualizadas de forma não autorizada, da ave mitológica Fênix. As minhas
habilidades como hacker já me meteram em muitas enrascadas, mas também me
salvaram de muitas outras. Cara, eu sou muito bom no que faço, mas quando se é
um hacker num mundo tão caótico como esse, um deslize e você caí num poço
profundo.
Meu poço
profundo foi acabar dedicando minhas habilidades ao roubo de informações para o
serviço secreto do país, já que tinham me detectado e prendido enquanto eu
invadia o supercomputador da multiempresa tecnomaga ArcTech. Era uma relação de
amor e ódio com o serviço secreto e eu iria receber tantos números de câmbio que
seria preciso comprar novos braceletes BankUp para armazenar.
O meu destino
drsticamente mudou quando o firewall do sistema da foi ativado e o meu modo
stealth foi desativado. Fui obrigado a encontrar um terminal de saída antes que
as magias de segurança me alcançassem. Percebi que eu não era o único que havia
invadido a ArcTech e que o alarme não havia sido ativado pela minha imprudência.
Havia alguém me trollando no sistema. Um agente, desses mais idiotas, tentou
quebrar os códigos de segurança da divisão de genética e biotecnologia usando
uma ferramenta mais ultrapassada que telas de LED. Graças ao desvio que o
sistema deu ao perseguir o troll imbecil, eu consegui tempo para quebrar os
códigos de segurança anti-stealth. Meu iSpell tinha um meio de criptogafar a
magia da invisibilidade me dando o mesmo efeito, mas com um novo código gerado,
impedindo que o sistema me reconhecesse rapidamente.
O meu iSpell
não era um dispositivo comum, era um dos poucos no mundo que rodava o
Googleplex OS. Eu consegui quebrar as senhas do software que os tecnomagos
colocavam em seus aparelhos, o Imprisoned. Não foi fácil, mas eu tive uma boa
educação. Com o imprisoned burlado, eu fiz um dual boot com o sistema Applex OS
e agora eu tinha duas poderosas ferramentas contidas no melhor hardware do mercado
depois do Electome, criado pelos elfos. Embora o Googleplex OS fosse muito
fácil de invadir, a minha habilidade com tecnomagia me ajudou a ligar os
códigos do Applex OS com ele, criando um novo seguro sistema operacional: O
Fusion OS. Eu mesmo que dei o nome.
Com meu iSpell
turbinado, consegui descobrir que o segundo invasor do sistema era um usuário
do governo. Um agente infiltrado. Um idiota enviado para fazer besteira.
Qualquer breaker que se preze sabe que não se pode invadir um supercomputador usando
a webnet. A webnet é uma rede mundial. Está presente em todos as máquinas no
mundo, é fácil de se locomover e mais fácil ainda de se identificar, mas a
cybernet é particular, mais fácil de quebrar uma vez que se tenha acesso. Todo
supercomputador possui as duas redes. Uma delas para o mundo, outra para os
internos. Conseguir a senha de um interno não foi difícil, mas invadir o
sistema sem dar aviso de conexão foi, mas graças ao meu iSpell, consegui.
O agente do
governo estava procurando um terminal para sair da cybernet, agora que o cerco
estava se fechando graças ao incrível anti-breaker que o sistema tinha. Eu
poderia sair por onde entrei, já que o terminal estava protegido pela senha de
usuário interno que não foi logado, por isso não foi identificada a abertura,
mas o sistema não iria deixar o agente sair. Não inteiro, pelo menos.
Quando o meu
iSpell me enviou um código de rastreamento OPN - Omega Protocol Network, eu
sabia que não era mais brincadeira. A coisa estava ficando séria. O sistema da
ArcTech havia logado os avatares dos tecnomagos para uma única tarefa: Rastrear
e destruir. O Fusion OS não conseguiu identificar a localização dos tecnomagos,
pois o inprisoned dos iSpells deles estava impedindo uma conexão por
desconhecimento parcial do sistema operacional. Um Applex OS só se conecta com
outro Applex OS. Contudo, qualquer operação que fosse feita eu saberia em
questão de segundos. E, em questão de segundos, eu estava sendo perseguido por
uma magia devastadora que bloqueou meu radar.
Quando o
efeito da System Blindness se desfez, era tarde demais. O agente havia sido
encontrado tentando abrir uma porta clandestina num setor de atendimento ao
cliente. Outro grande erro desses idiotas, achar que um setor movimentado
também deva possuir mais portas. Não havia nada que eu pudesse fazer. Os
códigos que eu queria encontrar já deveriam estar mais protegidos que o
arranha-céu dos dragões. Eu saí do sistema e voltei a tempo do meu iSpell
começar e pedir carga e de ser preso pela NDP, por tentativa de roubo de
informações privilegiadas e invasão de rede privada. Para abrandar a minha
sentença, eu ofereci meus serviços para treinar os operadores secretos deles.
Eu sabia que eles também tinham invadido o sistema, mas não obtiveram êxito ao
sair. Imagina se os tecnomagos descobrem que a polícia tentou invadir o sistema
deles...
Para que eu
não abrisse minha boca, fui nomeado a um cargo na divisão secreta da polícia.
Eu treinava os invasores e rastreadores. Consegui vender a patente do meu
Fusion OS, mas não dei os códigos de instalação. Você sabe quantas pessoas
ficam milionárias da noite para o dia, roubando informações privadas, ganhando
um cargo elevado no governo, vendendo patentes tecnológicas ao serviço secreto
e tendo apenas treze anos? Pois é, quando eu entrei nessa era só para conseguir
uma grana para comprar o novo PlayStation Infinity da SONY. Agora eu tenho
tudo.



Nenhum comentário:
Postar um comentário