O dia nasceu quente e o sol veio com força total naquela manhã de
segunda-feira. Ficar dentro de casa já não era uma boa ideia, pois estava
quente, muito quente.
Ivone morava com suas duas filhas e a irmã numa casa modéstia e humilde, mas
ainda sim limpinha. A casa era bem arejada, não tinha forro de nenhum tipo e as
telhas eram sobrepostas por lona. O vento circulava bem dentro de casa. Só que
há uma semana o calor havia aumentado consideravelmente na cidade, ou
melhor, no mundo todo, era o que diziam os jornais. O que estava acontecendo
ninguém sabia informar, as explicações eram muito científicas, mas Ivone,
macaca velha que era, deduziu que o sol estava se aproximando da terra...
Fabiana, uma de suas filhas, reclamou um dia que não estava conseguindo dormir
direito, o ventilador tinha quebrado e o calor era muito grande. Fabiana, toda
suada, foi correndo para o quarto de Ivone no meio da noite e pediu para dormir
com ela, pois lá o ventilador estava funcionando. Nesta noite, Fabiana e
Bianca, a outra filha, dormiram com Ivone. Apenas Cleide, a irmã de Ivone, não
dormira com elas naquele dia.
A cada dia que passava o calor era mais insuportável dentro de casa, e sempre,
na cabeça de Ivone, vinha àquela dedução de que o sol se aproximava da terra e
que destruiria Mercúrio e Vênus para depois destruir a terra num banho de fogo
ardente.
__ Que calor é esse? __ Perguntou Marina, vizinha de Ivone.
__ Minha filha, tenho um mau pressentimento sobre tanto calor de uma hora para
outra. __ Disse Ivone.
__ Que pressentimento? __ Perguntou Marina curiosa.
__ Eu, na minha humilde opinião, acho que o sol ta chegando bem perto da Terra.
__ Ivone, os cientistas disseram esse calor é por causa da inversão térmica. __
Explicou Marina. __ A poluição está sendo confinada aqui na atmosfera e eu não
sei mais explicar... Mas é por isso que ta calor, mas logo passa.
__ Querida, é tudo mentira! __ Replicou Ivone um pouco exaltada. __ Vai chegar
uma hora em que vai chover fogo, o vento vai ser quente e a água vai ser
fervente. Tome cuidado para quando não for ligar o ventilador à noite, no lugar
de sair vento sair fogo!
__ Credo, Ivone! __ Falou Marina. __ Você está ficando maluca. Relaxe, colega.
O bom do calor é isso. __ Marina mostrou sua roupa: uma minissaia e uma minúscula
blusinha que só cobria os seios, e olhe lá. __ Vou andar assim por um bom tempo
e mostrar meu corpinho de coroa sarada.
Ivone era muito religiosa e acreditava piamente no fim dos tempos. E este, para
ela, era o começo do fim. Os pecadores pagariam por todos os seus pecados aqui
na Terra, ah, pagariam sim! Ela criara suas filhas da mesma maneira, de forma
rígida e religiosamente correta. As duas meninas nunca saíram para uma festa,
nem para um encontro com amigos, nem nada do tipo. Ivone proibia essa interação
pecaminosa. As duas iam da casa para escola e da escola para casa, e às vezes
iam para a escola acompanhadas pela mãe, como forma de fiscalização. Ivone
fazia com que as duas garotas pagassem penitência por pensarem coisas feias com
homens e por assistirem programas ou lerem livros “do mundo”. Cleide, ás vezes,
dava uma escapada para tomar umas cervejas sem que Ivone soubesse, mas também
era devota de uma religiosidade, não tão aguçada como a de Ivone.
Na televisão os noticiários anunciavam o aumento da temperatura para 32
graus Celsius O calor já era insuportável. E em vários lugares do
mundo as pessoas estavam morrendo desidratadas, as vendas de ares-condicionados
aumentara 90%. O número de idosos diminuiu 40% em todo o mundo em menos de um
mês. Pessoas obesas eram internadas aos montes em hospitais, pois não
conseguiam suportar tanto calor. Os clubes eram lotados no começo, mas o
movimento baixou bruscamente quando perceberam que as águas das piscinas também
estavam começando a ficar quentes. Alguns clubes tentaram um sistema de
refrigeração para a água, mas só deu certo por alguns dias, o calor era mais
forte. Várias pessoas morreram quando se trancaram dentro de refrigeradores na
tentativa de se refrescarem. O consumo de líquidos aumentou consideravelmente
acarretando na diminuição de 0,5% da água potável do mundo, algumas
hidrelétricas deixaram de funcionar e era comum a falta de energia, eram nesses
períodos de falta de energia que ocorriam mais internações. As águas que
ficavam nas geladeiras não gelavam mais, no máximo elas ficavam frias, tempo
depois ficavam mornas, até chegar ao limite de ficarem quentes mesmo dentro da
geladeira. As pessoas já começavam a entrar em pânico, ninguém mais conseguia
dormir, muitos morreram na cama.
No meio da noite, enquanto todo mundo se revirava de um lado para o outro em
suas camas. Uma explosão extremamente distante pode ser ouvida por quem estava
mais atento. Em seguida um pequeno tremor no solo acordou aqueles que
conseguiram cochilar. A população acordou eufórica e saiu nas ruas. Todos com
roupas de baixo, as crianças nuas.
Ivone levantou da cama já premeditando o que aconteceria naquele último dia de
sua vida, último dia da vida na Terra.
__ Preparem suas almas, pecadoras! __ Falou Ivone calmamente para as filhas que
estavam à porta de seu quarto. __ Principalmente você, Cleide! __ Disse olhando
para a irmã com um olhar ameaçador.
Um grito estridente veio da casa de Marina.
Na rua, Ivone foi até a porta da vizinha. A filha de Marina vinha correndo para
sair de casa e gritando desesperada:
__ O VENTILADOR SOLTOU FOGO E TÁ INCINERANDO A MINHA MÃE! ELA TÁ PEGANDO FOGO!
Misturado ao grito de desespero da menina vinha o grito de dor de Marina.
__ A hora chegou. __ Disse Ivone.
Quando olharam para o céu, os moradores viram traços vermelhos muito longe que
vinham em direção da Terra. Também conseguiam ver uma luminescência vermelha
que começava a cobrir todo o céu com um vermelho escarlate que mais parecia
sangue se espalhando pelo céu. Os primeiros meteoros, destroços do que um dia
foi Mercúrio, começaram a cair destruindo algumas casas com explosões
devastadoras. A correria começou, o desespero aflorou em todo mundo, menos em
Ivone e em suas filhas e irmã, essas ficaram onde estavam e olhavam para o céu,
uma pegada na mão da outra em um circulo de oração.
Logo começou a cair água do céu, não exatamente água, mas lava. A cada pingo um
grito de dor e agonia. Não havia mais abrigo para se esconder, as árvores
começaram a entrar em combustão enquanto a chuva de fogo caía impiedosamente.
Fabiana e Bianca choravam de dor enquanto a chuva quente corroia sua pele, Cleide
segurava o choro e começava a perder a sanidade, Ivone continuava como uma
pedra a olhar para o céu enquanto sua pele era derretida.
__ Agora sim estamos pagando os nossos pecados! __ Dizia Ivone. __ O fogo
queima o pecado. É melhor pensar assim, não é? È melhor pensar que a os
assassinos vão pagar pelo que fizeram, que os estupradores vão pagar pelo que
fizeram, que os hipócritas vão pagar pelo que fizeram...
Cleide caíra no chão sem uma parte do rosto e com uma parte do cérebro a
amostra, mas Ivone e Bianca não soltaram as mãos dela.
__... os traidores vão pagara pelo que fizeram.
__ Os falsos vão pagar pelo que fizeram. __ Disse Bianca às lágrimas e logo em
seguida caindo no chão. Mas Fabiana não soltou sua mão.
As pessoas que não foram atingidas pelos meteoros eram corroídas pela chuva e
já viravam esqueletos no chão da rua. Um caldo vermelho estava sendo criado nos
córregos, uma mistura de sangue e fogo, de pecado e purificação.
__ Os invejosos vão pagar pelo que fizeram. __ Disse Fabiana. __ Os que têm Ira
vão pagar pelos que fizeram. Os Vaidosos vão pagar pelo que fizeram. __
Fabiana, que já não tinha a face de um ser humano caiu no chão e se esparramou
em víceras e pele. Mas Ivone continuava a segurar as mãos de Cleide, que se
soltara do corpo, e de Fabiana. E prosseguia:
__ Os preguiçosos vão pagar pelo que fizeram. Os gulosos vão pagar pelo que
fizeram. Os avarentos vão pagar pelo que fizeram. Os luxuriosos vão pagar pelo
que fizeram.
Os gritos cessaram, já não havia mais ninguém vivo naquela área da cidade. A
chuva aumentava de intensidade. Alguns minutos atrás outra explosão, desta vez
extremamente alta. Seria Vênus que deixara de existir também? E Ivone falou
pela última vez antes de cair queimada no chão alagado de lava:
__ E eu vou pagar por tudo que eu já fiz



