Escada de Vidro
A escada estava lá como sempre esteve. As visitas sempre elogiavam a audácia de Samara por ter colocado uma escada de vidro (sem corrimão) na sala de estar e ela sempre dizia que era o charme da casa inteira. Ela também sempre dizia que a escada era segura como qualquer outra, mas isto era mentira.
Josélia foi visitar Samara numa quinta-feira e não voltou mais para casa. Assim que viu a escada disse:
__ Samara! Que escada mais linda!
__ É, Josélia. Eu mesma que projetei. __ Disse Samara orgulhosa, mas já sem paciência por tantos elogios pela escada de vidro.
__ E o que é isso aqui no primeiro degrau? __ perguntou Josélia se aproximando.
Eram marcas estreladas que só apareciam no primeiro degrau.
__ Esta parte do vidro está se deteriorando rápido. __ Mentiu Samara indo em direção a um quadro com o desenho de 4 traços negros que ficava perto do início da escada.
__ Ah, eu gostaria de subir. __ Pediu Josélia rindo envergonhada por fazer um pedido tão bobo.
__ Claro, mulher, suba. __ Disse Samara.
Josélia subiu bem devagar. Sentindo cada passo e chegando no último degrau.
__ Agora desça pra ver como ela é estável. __ Disse Samara pegando um pincel em uma gaveta.
Josélia começou a descer. Virou o pé direito no terceiro passo. Caiu primeiro com o joelho numa quina (a patela se partiu em duas). Depois tentou, institivamente, parar a queda colocado os dois braços para frente, quebrando-os quando bateu as palmas das mãos em outro degrau. Deu uma bela cambalhota, machucando toda a extensão da coluna vertebral e lombar em mais três quinas da linda escada de vidro e, para finalizar, na segunda cambalhota, bateu com a cabeça no primeiro degrau da escada, aquele com as marcas estreladas, deixando outra “estrela” no vidro temperado. O corpo caiu molenga no chão com os olhos vidrados e a boca meio aberta como se fosse soltar um grito a qualquer momento.
Samara riscou um traço cortando os outros quatro que estavam no quadro.
